domingo, agosto 26, 2007

Para quando tivermos uma folga

Em meio aos dias
Que quase sempre se parecem uns com outros
A gente sai sempre em busca de muito pouco:
Quem sabe chegar vivo depois de sair de casa

O Amor virou algo para quando tivermos uma folga
Uma conversa rara entre as sobras
De um cotidiano de multidões e desertos que nos ronda
Em meio a estes dias de velocidades e horários

Em assim, nestes dias
Nós também nos parecemos uns com os outros
E a indiferença é um vício que nos deixa quase mortos
Com a sensação de que estamos tão vivos como força de trabalho

Mas às vezes você pensa até mesmo sem querer
Que a laranja mecânica será espremida na certa
E o que sobrará para você
Depois de acumular horas extras para gastar com uma vida deserta?

O Amor virou algo para quando pudermos fazer uma viagem
Quem sabe Disneylândia para comprar novas grades
E voltar com a sensação de que somos livres para escolher
A prisão que nos cerca ou a verdade que nos mate

É, às vezes você descobre é sem querer
Que para a bolha explodir anda faltando muito pouco
E o que sobrará para você
Depois de abrir conta no banco para pagar prestação de cemitério

Tapete

Se iludiram com a notícia
Acharam que o sólido não se desmancharia no ar
Nas portas de um novo escândalo
Escaldado de uma nova revolta popular

E do lado de baixo do tapete
O segredo é popular em meio ao tiroteio
Nos enganaram de novo: o novo não veio
Amanhã, uma nova bomba desviará o nosso olhar...

Nos enganaram com a lista dos dez mais
O melhor livro não estava em primeiro lugar
Falta de ter o que dizer não é ter paz
Para si mesmo é impossível disfarçar

E do lado de baixo do tapete
A secreção é um rio que deságua em teu seio
Até quando esperar pelo futuro que não veio
Amanhã, uma nova manchete põe tudo em seu lugar

Nos enganaram com a receita
Laranjas e fantasmas travam nosso paladar
Mas, estando no banquete a gente aceita
E ainda aprova quem possui a arte certa de furtar

E do lado de baixo do tapete
Pó e poesia se confundem o tempo inteiro
A gente perdeu as palavras e anda perdendo o receio
Amanhã, uma nova moral vai nos atacar...

terça-feira, agosto 21, 2007

Vigiar & Punir

Nessa estrada, há sempre o risco de ficarmos loucos
Ao fazer demais e ser sempre muito pouco
Quando quem vive a punir e a vigiar
...vive a sugar e depois descartar...

Nem sei se consigo chegar ao sol que me espera
Se perto demais a luz cega...
...longe a escuridão parece uma fera...
Quem sabe um sonho para nos salvar?
...um novo dia, um novo lugar...

Nessas horas, há sempre o risco de enlouquecermos por pouco
Deixando tudo igual, um dia após o outro
Sem enxergar nada de novo a não ser punir e vigiar
Eles vivem a nos sugar...vão nos descartar

E eu nem sei se enxergo o sol que me espera
Se perto demais a luz me cega
De longe a escuridão parece uma fera
E há quem ache que seja peça
Que faltava para o mundo andar...
Há quem viva a achar...

Nessas dias, há sempre a loucura de enfrentarmos o risco
Fazer a diferença, expor ao perigo e sair do abrigo
Quem sabe desafiar quem vive a punir e vigiar
Não vão nos sugar...não vão nos descartar

Eu sei que ainda há um sol que nos espera
De perto, a luz nos fere e parece que cega
De longe, a escuridão vem feito fera
Mas no ponto exato tudo vai se iluminar
Vivemos a procurar...

domingo, agosto 12, 2007

Moldura (Luis Vilar/ Manaíra Aires)

Acordei entre dicionários e física quântica
Entre cálculos e contas de prazos vencidos
Acordei sem ideologia, falida a banca
O que mais me espanta é ter perdido a capacidade de me espantar
Não conseguir estranhar as estranhezas deste lugar
Estradas e entranhas: por onde passar?

Coca-cola, Benetton, Nike e outras piratarias oficiais...
Numa moldura clara e simples, sou aquilo que se vê
Nada mais me espanta, nem os críticos sempre iguais
Suas frases que nascem na garganta sempre certas e superficiais

Nada mais me acerta,
nem o beijo suave, nem a porta aberta
Não há espaço para explosões de pensamentos e sensações
Troca de amor feito envio de arquivo de fotografia
Passar a vista sobre ti feito olhar casa vazia
Tudo congelou num flash, numa luz em que escondiam ilusões
Palavras não me bastam mais.

sábado, agosto 04, 2007

Contando o tempo

Andei contando este tempo que escurece
As horas em que estive vivo não deu sequer um dia por mês
Entre tudo que eu poderia ter sido, entre os caminhos que desperdicei
Chegou o tempo em que a verdade que em mim reside
Cobra de meu coração o jardim que eu não plantei...

Passei tanto tempo perdendo tempo em ser triste
Que nem vi que você segurava minha mão quando mais precisei
Não posso voltar ao lugar onde a ferida se imprime
Mas ando me reconstruindo em passos lentos
Sem saber se vou ter tempo de voltar a ser
Aquele que te encantou um dia com a poesia que poucos lêem

Andei conquistando coisas caras, mas sem valor algum
Tudo aquilo que em mim hoje mora
São os dias que não vivi e as palavras que não falei
O amor quem aqui e me devora
É o que não sei expressar, nem deixar claro para alguém

E assim as feridas vão ficando abertas
Um cemitério na cabeça que ninguém vê
Onde residem os abraços que não dei
E os sonhos que não realizei...

Para mentir

Flores por onde fores
Não desejo nada de mal para você
Rezo para que encontre novas cores
Que justifiquem a partida
E o teu jeito de não mais me querer

Não pense sequer em mim
Não se interrogue como eu fiquei
Aguardo mais um começo dentro deste fim
Foram tantos que já me acostumei
Não pense que foi diferente com você
Só porque dentre as outras foi a que amei

Pegue a estrada aberta
Nem se preocupe que eu vou me virar
Saia antes que eu comece a chorar
Tem coisas que você não pode ver
Como a cor incerta da minha estrada deserta sem você

Eu até entendo muito bem
Que ao fim de tudo não precisa explicação para partir
Não lhe cobro sequer uma frase
Sequer um discurso, sequer um beijo antes de ir

Só me poupe de dizer adeus
Quando ainda há tantas palavras em mim
Só me poupe de ter que ser eu
Acredite no que digo diante da força que faço para mentir

Sorriso de tele-marketing

Eu sou em carne viva
A vida me ensina a me recompor ao sair
Parte de mim é pecado
A outra é dúvida do que é certo ao existir
Eu estou na estrada por entradas certas e erradas
Na tentativa de me descobrir

Às vezes a alegria consegue tomar conta de mim
Mesmo quando tudo dá errado
Quando o tempo está fechado
Quando o céu ameaça desabar tangenciando o fim

Eu gosto de sentir
O perigo eminente invadindo o abrigo
Antes de dormir
Eu gosto de estar vivo
Não me falta coragem para ir...

Quem diz que a felicidade está em livros de auto-ajuda
Não sabe ler o que de fato está aqui
Não ando em busca de perfeição nem de ajuste de conduta
Sorrisos de tele-marketing não fazem parte de mim
Eu sou em carne viva
Ausências, retornos, presenças e partidas...
...fazem sim, parte de mim...