quinta-feira, novembro 30, 2006

Aos léxicos

Poemas enquanto é tempo
Para problemas que não tenho tempo de solucionar
Dias em movimento
Para uma solidão que eterniza tudo em seu lugar
Medo e comedimentos
Para os procedimentos que precedem a segurança do lar
É capital
Sair lucrando de qualquer relação
É condição natural
Imaginar que até o amor é competição
Não faz parte do contexto largar as velas no meio do mar
Não está previsto no texto que escreveram sem vivenciar

Como nós (Luis Vilar/ Manaíra Aires)


Pessoas como nós abrem velas na tempestade
Semeiam em campo minado, sem os olhos atentos ao que vai nascer
Pessoas como nós já parecem saber
Que tudo tem sua obsolescência e que dela nasce um início
Ainda que com novas intempéries e novos vícios

São pessoas como nós...com muito a dizer e pouca voz
Que guardam sonhos nas gavetas...jogam poesia sem ideologia
Desenham com tijolos nas calçadas o que esperam do amor
Enquanto tempestades, nos acolhem ou dispersam
...são pessoas como nós...

De peito aberto, embora as escolhas que fizemos sejam dolorosas
E tudo o que deixamos não entendam nossa partida...ou nossos poemas
Serão os olhos alheios...ou a ilha de nossos temas?
E por mais que pareça uma citação absurda
Ás vezes enfrentar a vida de peito aberto não deixa de ser uma forma de fuga

Para pessoas como nós...
Estão num teatro mágico a espera de iniciar...

Vocês


Vanessa...
Uma canção para dizer tudo é muito pouco
Só quem sabe do rio que a gente atravessa feito louco
Pode afirmar que “o amor é um artigo de luxo” em dias superficiais

Em que a gente chega e casa e se refugia um no outro
...um abrigo anti-bomba, calendários, regulamentos e comerciais...
A espera de que amanhã seja melhor por querermos muito pouco
Escorando sonhos na honestidade de quem ainda luta por paz

Vanessa...
Se não fosse teus olhos talvez já estivesse morto
O sentido que nasce em nossa filha feito um mundo novo
A cada palavra que ela aprende, cada passo, cada graça

Quando eu chego em casa e meu refúgio são duas meninas, dois rostos
A cidade vira interiorana sem prédios, com inocência de algumas praças
A espera de que amanhã seja melhor pelo pouco que alimenta nossos corpos
Escorando sonhos na coragem de quem ainda luta com alma

Enquanto eles têm tudo, eu tenho vocês
Nestes dias, vejo como eles não têm quase nada

Beatriz...
Uma canção para dizer tudo é muito pouco
Só quem sabe o quanto o teu sorriso me fez novo
Pode afirmar que “amor é um artigo de luxo” entre banais

E quando chego em casa que nos refugiamos um no outro
Ainda que você ainda não saiba o que significa refugiar
Espero que amanhã seja melhor para que você precise de pouco
E que este pouco seja o muito que estamos dispostos a dar

Beatriz...
Se não fosse teus primeiros sons talvez já estivesse morto
O sentido que nasce em tua mãe feito um mundo novoA cada palavra que reaprendemos, a cada gesto, a cada estrada

Forte flerte fatal


Forte flerte fatal

Quem quis me ver cair, não pode rir agora
Volto sempre mais forte
Do que não me mata na hora...
Será sempre assim, já conheço bem a história
O que não se pode explicar
Só nos resta sentir, ou então ir embora...

A vida se insinua por aqui
Há dias em que tanto faz ficar em casa ou sair
Se o que buscas está em ti...
Quem poderá nos julgar pelo que não pode sentir?
Só eu sei do fundo do meu poço sem fim...

Não pare por aqui, esperando passar a verdade
Quem mergulha raso em si, se afoga em mediocridade
O trem da liberdade não pára, para quem não tem coragem
Não limite, suporte ou redes, apenas decolagem
Para onde quer que se queira ir...

Ando do outro lado da calçada da indústria
É alto o preço e prevista a multa
Sob olhares atentos que não enxergam nada de si
Mas não há outra forma de ser
Sou assim...
Para quem ficou de pé, para quem quis me ver cair...

quarta-feira, novembro 29, 2006

Nós...


Minha família...meu lar...meu refúgio...

Carta ao Hezbollah


Negócio fechado...estrada aberta
Minhas orações em casas desertas
Começaram a semear ilusões
Novas vidas onde menos se espera
Requentando sonhos, recriando canções...

Melodias para depois do canto do cisne
Sabe-se lá o que virá nos encantar?
Atento ao que nos incide..
...de pequenos gestos ao Hezbollah...
Triste por tantas coisas
Mas esperançosos por continuar

Corações: armas do nosso exército
Nossas almas: couraças para transpor o deserto
Mãos para quem chegar perto
Bocas para enfim transpirar...
...pensar sem âncoras ou velas para chegar...

Parece mesmo que estamos ao contrário
Feito “dom quixotes” guardados no armário
Ainda nos machucamos ao ver TV
Tropeçamos em sonhos
Derrapamos em campanhas presidenciais
Formamos uma milícia que nunca irá se encontrar...

Um grupo terrorista que implode a si mesmo
Enquanto deixa os oficiais passarem por nós
Orgulhosos de acumularmos silêncio
Enquanto quem menos tem palavra possui mais voz

Luz e sombra


Aos chatôs do meu Brasil varonil, verbas governamentais, sombra e água fresca. Aos demais, trabalho escravo e eterno cio...nossas prisões, nossas etiquetas...sejam etiquetas sociais, ou das camisas Lacoste...

A bandalheira encheu o saco...para piorar, não há esperança de que nada mude. Ao espelho confuso, que mais deforma do que reflete deram no nome de mídia. A qualquer cultura institucionalizada deram o nome de geração...foi assim da "Coca-cola" ao "Ipode"...Será que pode? Sei lá...

Não há mais graça nas gracinhas da TV...para quem sofre de overdose de lucidez...atirem os lançadores para cima...sinais de S.O.S...quem sabe uma arrebatação...quem sabe um Deus...no mais, futebol e cachaça...sabe porque? Ninguém é de ferro amigo...

E quanto a tudo que os jornais escrevem é só resumo. E já dizia o poeta: "O principal fica fora do resumo...o principal...o cara-de-pau...e a gente levando pau na cara!!!

terça-feira, novembro 28, 2006

Um ateu em busca de Deus...


Durante algum tempo em minha vida sempre acreditei - piamente - que as coisas que a ciência não poderia explicar, não possuíam o direito de existir. Uma posição assumidamente niilista que sufocava - por vezes - uma vaga emoção agnóstica que percorria em mim.

Devoto de Nietzsche e – paradoxalmente – um fanático por destruir mitos que nos levam ao fanatismo, abri caminho, por dentro da minha própria vida, numa cruzada insana contra qualquer centelha de fé que pudesse surgir e por a perder a forma racional e pessimista. Foi inútil até aqui...

Posso


Posso comparar o antes, com tudo que nasceu depois de você
Posso te mostrar um jardim, que sempre esteve em mim e nunca cuidei
Posso te dizer da força que vem me ajudar a sobreviver
Posso te revelar o quanto choro quando penso em te perder
Mas quando a tarde esfria e tudo fica cinza sem que eu possa te ver
Sei que não posso te mostrar o que de melhor você me fez

Não estão nas palavras soltas, telefonemas...
...ou nos passeios do nosso mundo pequeno-burguês
Estão distante de qualquer poema
E cai em mim como uma saudade de tudo o que não se fez

Quando você sai, não lamento só a sua ausência
Mas sinto falta de mim mesmo em meio a tudo que hoje sei

A fortaleza e as pequenas memórias


O aguardado livro de José Saramago – ao menos aguardado para mim – chegou às livrarias. Chama-se As Pequenas Memórias. Como sempre ler Saramago sempre me remeteu a mim mesmo. Apenas dois escritores me dão esta sensação de tradução simultânea: José Saramago e Hermann Hesse. No entanto, desta vez foi diferente da obra anterior Intermitências da Morte, onde ele apresentava uma cidade onde ninguém morria. As Pequenas Memórias soa absolutamente real. Não é uma paródia, a qual os leitores já haviam se acostumado desde A Caverna (um dos mais belos livros com o qual já tive contato...vale ressaltar que esta visão é extremamente pessoal e não me responsabilizo pelos que resolverem ler o livro e o detestarem).

Mas enfim, vamos ao que de fato importa. As Pequenas Memórias nos remete ao tempo em que as tentações do mundo andavam de mãos dadas com a nossa ingenuidade. Quando ainda estávamos sobre uma imensa caixa mágica cheia de experiências que conhecíamos, sem muitas vezes sequer entender, ou então estarmos preparados para elas. Além do mais, a grande beleza das “primeiras vezes” de nossas vidas é que de fato, nunca estamos preparados para elas. Graças a Deus. A melhor coisa do amor à vida é que torna justificável, aceitável e até mesmo louvável e admirável nossos grandes erros por amor.

Quando comecei As Pequenas Memórias imaginava encontrar um Saramago frágil, que viva de pequenos escritos, numa ilha distante dos que possuem a mesma idade. No entanto, o livro trata de um garoto comum que crer que suas experiências são nitidamente incomuns, sem saber que todos passam pela mesma coisa. Incrível: minha adolescência e infância foram assim. Sempre fui excessivamente tímido e um tanto quanto medroso. Não medo dos outros, mas de mim mesmo. Da forma como interpretava as coisas. Achava que o meu olhar era agudo demais. Escondia-me então nos livros, nas poesias (que por algum motivo voltei a escrever desde o mês passado, depois de uns dois anos sem tocar na pena). Senti o cheiro do meu medo, nas folhas de Saramago...

Qual era a porta do mundo que eu fechava ou que se fechava para mim? Qual caminho me trouxe ao meu mal sagrado, as conclusões falíveis e a eterna armadilha socrática do eternamente parir a si mesmo? Carrego um defeito incrível e inconfessável, mas que revelo sem pudores: sempre me dei melhor com os livros que com as pessoas, mesmo não lendo tanto assim e não sendo nenhum intelectual (palavra da qual – diga-se de passagem – tenho asco). Ao ler Saramago, me indago onde este defeito começou...Ás vezes inclusive confundo timidez e medo e faço da arrogância uma defesa, que ao olho nu bem que se passa por auto-confiança. Não sei, por exemplo, onde quero chegar com este texto...aliás, me pergunto se há onde chegar...se é preciso chegar...

Minhas memórias de hoje recebem o adulto analisador e catalisador dos fatos e cada vez mais se distância da criança sensorial e contemplativa. Este adulto, às vezes joga a culpa de tudo nos pilares óbvios do desenvolvimento humano: aquilo que Freud já descreveu melhor que eu. Não vou entrar em detalhes. Mas, longe do óbvio ululante está um terreno perdido dentro de mim que não encontro. Um espaço que nunca submeti a terapia nenhuma. Que tem sua porta selada, trancafiada. Algo que Hermann Hesse, em seu Lobo da Estepe chamou de Teatro Mágico Só Para Iniciados.

Este algo subjetivo pode até ter vindo de antes de qualquer experiência que consumi, ou que tenha me consumido. Porém, apesar de tudo que há de errado neste lugar que não conheço, tenho que reconhecer: a fragilidade me fez querer uma fortaleza sólida, ainda que não tão segura assim, e distante dos prazeres epicuristas e pós-modernos. O que me faz me curvar sempre sobre uma das mais belas frases da minha esposa Vanessa Alencar: “O amor é um artigo de luxo”. Pois é, longe de tudo que custa caro neste mundo. A simplicidade deu um real valor ao amor, que me acompanha desde o meu gênesis, seja meu pai, minha mãe ou minha filha. Eu poderia até ter tido outro caminho até aqui, mas dificilmente enxergaria com a mesma exatidão esta fortaleza que alguns chamam de amor, em seus mais amplos significados.