sábado, dezembro 30, 2006
De coração (Ano Novo)
...para mais uma virada de página?
A festa em si não seduz
Mas que tal orvalhar simplicidade sobre a casa?
Sem promessas exageradas
Apenas ser melhor que si mesmo se puder
E que venha em paz tudo o que vier
Longe dos fogos de artifícios
Novos artesanais inícios
Ainda que seja por pura simbologia
Mas precisamos de mais luz e outras poesias
De coração, que o que há de mais simples possa te tocar
De coração, que o valor de cada coisa se revele a teus olhos
Sem que seja preciso colocar preço em tudo que se vê
De coração, que o que te emocione faça você se mover
Que tal luz...
...espalhada na virada pela casa...
Que não haja muro, conceito, ou palavra
Que seja dada a mão, ao que vier de coração
Pode ser pouco
Mas desejo a todos que vierem aqui
Pode parecer tolo
Mas sussurro aos que não quiserem ouvir
Eu vou escrever o livro que ainda não li
São as possibilidades que jorram diante do conflito
É preciso luta, nasce da dor as frases mais bonitas
Por isto, não podemos perder os poetas de vista
Para enxergar tudo aquilo que o jornal não escreveu
Longe da comoção em massa, o que só é teu e meu
Sombras fazem parte do dia-a-dia
Nem por isto vamos estar fora de área de cobertura
Nos poros ainda transpiram poesia
E eu confiei ao meu coração a razão das minhas loucuras
Solto no acaso e sempre em busca
Eu vou escrever a página do livro que ainda não li
Mas que deveria estar na prateleira que eu nunca vi
Para dormir em paz, sem comprimidos...
Para acordar em paz, sem ser reprimido...
E anote bem, nenhuma tradução é tão exata quanto a vida
Todo mundo precisa de uma leitura
Mas no mundo, não há leitura precisa...
E quando quiser aliviar, busca teus pares...paira no ar...
Estamos afastados, mas não somos minorias
Teu mundo pode ser o que você escolhe aceitar
Estamos anestesiados, mas não somos minorias
É preciso estarmos juntos nas manhãs mais aflitas
Se respirar, é flagrante delito
Aqui não há justiça, aqui não há justiça
Quando chega é mão no muro
Que não apalpa o futuro
Malandro tu vai ser revistado
E se eu achar algum trocado é tráfico
E se eu não achar trocado é tráfico
Aqui se nasce derrotado de um jogo que não se quis
Aqui são bem menores as possibilidades de ser feliz
Tem um cara lá dentro que vende mais barato
Tem que pagar rápido se não entra no saco
Cabeça no chão e mãos onde eu possa ver
E se eu achar algum trocado vou matar você
E seu não achar trocado vou matar também
Se respirar, é flagrante delito
Se respirar, é flagrante...eu repito
Mostra o bolso, deus queira que hoje tenha algo
É para sua proteção, você sabe como é o mundo aqui embaixo
E quem disse que o inferno é mundo
Pode não ser mundo, mas parece mudo Seu polícia
Se respirar, é flagrante delito...
Eles parecem ninjas
Todos de preto para bater em pretos calados
Eles parecem ninjas
Todos de preto apadrinhados do Estado
São especialistas em exceção desde que haja extorção
O nome deles é polícia...
Murro, soco, ponta-pé...calar pela barriga
E não adianta nesta hora vir com sangue quente
Não adianta nesta hora dar uma de inocente
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Capitã América
Quem sente sobre pele os satélites que se anunciam
Oficializaram a magia dos teus olhos;
institucionalizaram a rebeldia
Quem carrega nas costas a América
Um continente contido nos planos da CIA
Na rota dos chineses, ondas de pirataria
Perdemos o controle...pairamos sobre a culpa
Nós viemos a reboque...o que nos cai feito luva?
Como se faz para ter sonhos na América?
Esquerdas da esquerda se privatizam e silenciam
Como se faz para ter sonhos na América?
Fidel Castro, Hugo Chaves, Lula, Morales
Quem são os pares?
Quem são os pares da América?
Quem força a porta para entrar em Cuba?
De um lado a cara da luta do outro a hipocrisia
Dossiês de inteligência, chuvas novas em Brasília
Quem são as estrelas na bandeira brasileira?
Quem são os herdeiros das capitanias?
Quem nos capitania?
A quem pertence a América...
Há América? Há América?
Sou louco por ti América, sou louco por teus horrores
Aos Milagres
A fúria destes dias nos deixa longe da nossa melhor parte
Então quem vem nos visitar no auge da dor?
Quem virá nos ver, quer observar ou sugar o resto de som
Nossa fortaleza – nem de nós – nos protege mais
Como guardar o que há de melhor em nós?
Como deixar escapar a nossa voz...
Nossa prece – nem de nós – se lembra mais
Rezar por dinheiro, no fim!
E assim esquecemos dos pequenos milagres...
...que descem para nos proteger...
E quem não precisa de um milagre pra agüentar um dia a mais
Que sejam coincidências...sejam ilhas de paz...
E as pequenas coisas nos protegem por qual razão?
Serão milagres? Serão milagres que fazem serão?
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Orvalho de Otimismo
Que casa corpo com alma
Que me inunda feito luva na mão
Que veste o sorriso de idéia
Que transcende a tensão da estréia
Quando inauguramos o palco da solidão
Chuva que cai agora ao lado da tristeza
Levando embora quem nos agarra pelo coração
Chuva que destrói raiz
Jogando novas sementes nos mais inférteis dos chãos
Chuva que afaga a retina dissipando a dor
Pode chorar...pode chorar
As lágrimas podem ser orvalho de otimismo
Estamos saindo do fundo de nós
A solidão é a pior forma de egoísmo
Deixa o futuro te visitar
Pode chorar...pode chorar
Teleologia
Muito menos ter as respostas já postas
Vivo de sonhos (e há quanto tempo não sonhava?)
Hoje, novos milagres me reabriram as asas...
...pode ser o teu sorriso...
...minha filha caminhando pela casa...
Às vezes quando é insuportável a realidade
Crer no invisível pode ser uma das possibilidades
Você pode até achar que eu não sou ambicioso
Porque não desejo ser melhor do que ninguém
Entre os discursos e as ações vigentes
Entre as miragens e o que de fato é transparente
Eu realmente não preciso ser melhor do que ninguém
Basta chegar em casa e ter vocês
Basta abrir asas e saber que amanhã, você ainda vem
Teleologia contemporânea...ciência das cavernas
Intelectualidade de vitrine...qualquer coisa pós-moderna
Não me importa, nem sei se me abrem portas
Lembra do tempo em que éramos vivos, naquelas fotografias mortas
Aonde chegamos? Para onde iríamos? Aonde deveríamos estar?
Você pode até ter certeza...você pode simplesmente achar
O tempo anda e a gente tanto se prende
Quem quiser saber a cor do mistério que se agüente
Quem quiser pintar novas telas de poesia
É bom saber que as dúvidas também angustiam
E você pode até espalhar que nunca fui ambicioso
Por não desejar ser melhor do que ninguém
E você pode até gritar que eu sempre acabo com pouco
Se o valor do que me resta só eu mesmo sei
E ontem eu voltei a sonhar...pois é, ontem eu sonhei
terça-feira, dezembro 26, 2006
Defeito de fabricação
O que te faça andar
Será que não há um dia diferente
Em meio a tudo onde você está
Andei pensando tanto assim até me questionar
O que me trouxe até aqui...o que ainda me faz ficar
Será o fim de tarde com a sensação de dever cumprido
Será o gol da vitória, no último minuto e quase impedido
Será que é porque foi a ferro e fogo que a gente se fez
Será que é porque por mais que gente ame
Todas às vezes é como se fosse a primeira vez
Será? Será? Será?
Este lado irracional pode até ser defeito de fabricação
Nossas curvas inconseqüentes, perdendo o controle e a razão
No entanto é o que nos mantém de pé depois de tantas explosões
Quando perdemos os sentidos...e deixamos acontecer
Sob as ruínas e os ruídos nós sempre somos aqueles que pagamos para ver
Será que não há mais o que te esquente? Será?
O ponto final que a ciência imprime, para nós é ponto de interrogação
O que para outros é latente, para nós é simplesmente nossa condição
Maior dimensão
Por que perder a paixão?
Por entre as ondas destas quimeras
Quem foi mesmo que jurou ter razão?
Qual passado ficou no meio?
Qual livro contém a melhor tradução?
Quem disse que o futuro não veio?
Quem ficou sozinho com a esperança nas mãos?
Tuas rotas te levaram para onde?
Quais ventos te fizeram mudar de direção?
Quando a gente traça os mapas
Sempre deixa de fora o que é de maior dimensão
Quem quiser respostas
Tem que trazer as perguntas certas
E agüentar a verdade sendo iluminada pela dor
Tem que saber que não dura para sempre...
O tempo e a história destroem tudo o que se encontrou
Tem que saber encontrar, sem se apegar
Tudo que é sólido se dissolve no ar
Quem quiser fazer as apostas
Tem que estar disposto a perder sem esperar
E agüentar a derrota sendo maturada pela dor
Tem que saber que não dura para sempre...
O tempo e a história destroem tudo o que se encontrou
Tem que saber pagar, sem ter preço certo
Em toda multidão há um pouco do nosso deserto
Quem escutou o adeus dos profetas?
Por que a poesia impressa perdeu atenção
Quem debulhou terços e rezas?
Qual crença estava certa afinal?
Qual é diferença entre o remédio e a dose letal?
Será a dose certa que separa o bem do mal?
Tem que saber apagar, ao guardar o que te emocionou
Tudo que é sólido se dissolve sob o sol do amor
Dias assim...
Já não busco mais nenhum plano
Estou aberto ao que tiver por vir
Não leio tábuas de maré para compreender oceanos
Acredito que viver não é assim
Se você quer mesmo me definir
Sou contraditório assim mesmo, nem lembro desde quando
Hoje à noite eu vou sair
Vou me perder, quem sabe ainda me encontro
Em dias assim, não há porque mentir
Mesmo não sabendo ao certo do que estou falando
Acho que eu vou me perder, estou indo ao seu encontro
Sou contraditório assim mesmo, nem lembro desde quando
Em dias assim, não há porque mentir
Há dias em que só nos resta aquilo que realmente somos...
Hoje à noite eu vou sair
Vou descobrir aonde chegar, quando estiver andando
Sou contraditório assim, pena se não é o que estavas esperando
No limite, não há porque fingir
No limite, não há porque fugir
Mesmo não sabendo ao certo o que estamos procurando
sábado, dezembro 23, 2006
Olhar
O que não aconteceu
O seu olhar desdenha
O que era sonho seu
Não sei porque o seu olhar não molha
Não molha quando olha o meu
O grão que cai lá fora
Fez galhos e quis crescer
Mas você abandonou a história
Antes que o amor pudesse te ver
Se você soubesse agora
Que o meu coração é melhor ao lado do seu
Se eu pudesse te dizer agora
Que o teu coração faz bater o meu
Não sei porque o seu olhar não molha
Não molha...não molha...
Poema tolo
Pelos poros, transpiram sonhos, sinto pessoas
Sob a noite, atravesso lento a solidão que ecoa
Eu, minha circunstância e um pouco de poesia
Talvez até volte a te encontrar nesta cama vazia
Quem sabe volte a me encontrar nesta noite vazia
Às vezes basta um olhar para mudar a direção do dia
Às vezes basta você me ligar, tudo então mudaria
...outra cor...outro som...
...outra fúria em forma de melodia...
Pelos dias, transpiram sonhos, o tempo voa
Sob os poros, passeiam lentas verdades que ecoam
Eu, minha circunstância e um pouco de ousadia
Talvez até volte a te encontrar naquela cama vazia
Quem sabe volte a me aceitar na nossa noite vazia
Às vezes basta um olhar para mudar a direção do dia
Às vezes basta você me ligar, tudo então mudaria
...outra cor...outro som...
...outra onda que vem e nos silencia...
Turistas do cotidiano (Luis Vilar/ Manaíra Aires)
Do outro lado de tudo que tá prestes a explodir
E a gente ainda se pergunta onde voarão os escombros...
Na contramão...a gente ainda tenta crer
Que é possível parar o trem na estação, sem estar no comando
Pregações no deserto...encantos de sereias no oceano
Aqui dentro, asfixiados em dias iguais
Estrelas que irradiam brilhos artificiais...
Por dias inteiros
Nós somos os turistas do cotidiano...
parece que sempre estamos em terreno estrangeiro...
Estrangeiros que somos em nós, nossas viagens
Turistas de passagem, forçosamente ou não, sempre de passagem
Às vezes a gente sabe, mas ainda assim não consegue entender
Como a violência nos assusta e ainda assim vende muito mais
E a gente ainda se pergunta quando serão as reprises dos escombros
E na contramão...a gente sabe muito bem
Que é necessário ainda crer, mesmo sem estar no comando
Contrariar sereias compondo novos cantos
terça-feira, dezembro 19, 2006
Razão aparente
Havia outros caminhos, mas não houve outro jeito
Foi ao sabor do acaso, uma história pré-definida...
Colidi em ti, regido pelos meus melhores defeitos
Será que foram calculados todos os erros?
Não havia outra forma de chegar
Não havia melhor forma de encontrar
Se não fossem as incertezas destruindo os medos
Que seja agora, ou que seja então a despedida
Não deixe no meio do caminho a razão das nossas vidas
Quando sou alguém bem melhor a cada instante
Quando já nem lembro mais do que havia antes
Eu e você, foi inevitável acontecer
Alguém tentou nos avisar...demoramos tanto a perceber
Eu e você, era impossível acreditar
Quase ninguém ousou apostar no que não pudemos escolher
Eu e você, agora já não dá para deixar
Quando fomos derrotados, fomos os primeiros a vencer
Eu e você, ao acaso até onde seja possível chegar
A espera do que é impossível prever...
Sob águas turvas
Não serão colisões de aviões...nem noites sem fim
Pequenos gestos: focos de luz na última curva
Vamos ao mar ainda que sob águas turvas
Minha nau sem portos...
...meus caminhos a esmo...
Como podem os sonhos estarem mortos...
...se os medos ainda são os mesmos?
E amanhã se não for solução, também não será a última vez
É preciso acreditar...sem perder a lucidez...
Quem vem? Quem virá? (Quem será?)
Algo que nos fará sonhar...flash back em alto mar
...virá como inédito o que a gente nunca deixou de ver...
Minha nau sem portos...
...meus caminhos a esmo...
Como podem os sonhos estarem mortos...
...se os medos ainda são os mesmos?
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Composição
Da dor ao parto...do parto a luz
Continuar ainda que saia do tom
Do alto da nossa imperfeição
Deixar sentir e compor como se fosse a linha da mão
Deixar correr como um rio sem direção
...no final haverá mar...
...que a gente atravessa sem perceber...
...as correntezas e a embarcação...
Não sei do que fala o último verso que te joguei
...mas saiu do fundo do poço do coração...
...foi sem predileção, sem previsão...
...eu juro...
E há quem diga que é um mistério solto no ar
Não há mistério algum no sobrenatural
...eu juro, é real...
Desenhar a letra sobre a sensação
Da dor ao parto...do parto ao que nos conduz
Continuar ainda que tropece na razão
Do alto da nossa imperfeição
Deixar sentir e compor como se fosse necessário vir aos poucos
É necessário...é preciso para que eu não termine louco
...no final, vou me exorcizar...
...e você às vezes me vê sem perceber...
...minhas nuanças, meu sufoco...
Não sei do que fala o último verso que te dei
...mais saiu do fundo do poço do coração...
...foi premonição, ou prescrição....
...eu acho...
E há quem diga que há uma razão no ar
Não precisa motivo, nem razão para o que é real
...eu acho que é sobrenatural...
Quadro geral
Dores que trarão o que de melhor há em você
Difícil avaliar até tudo assentar
Enquanto a tempestade de poeira molda o que não se vê
Não existe tempo em vão
Por maior que seja o vão entre querer e poder
Às vezes a gente chega onde nunca imaginou estar
Às vezes se revela dentro do caos algum novo lugar
Que até então, estavam distantes das previsões
Que não faziam parte dos planos, nem das compilações...
É para deixar o tempo passar
Antes de pintar qualquer quadro geral
Da dimensão da dor ou até mesmo das satisfações
Não dá pra ser feliz, sem antes sujar as mãos
...sem antes derrubar ao chão...
...o que antes sequer pensaríamos em perder...
E quando estiver somente você e seu olhar mais ateu
O melhor pode nascer dos erros que se cometeu
Não há caminho certo para ninguém
Não queira crer que este será o seu
Sob um mapa traçado, não há som, fúria, ou amor
Sob um quadro pintado, as emoções não se traduzem em cor
Poucos os que brindam às uvas, com o vinho que a vida deixou
Poucos voltam para ver o que restou
Sem raízes fixadas, sem endereço, sem altar
De peito aberto em qualquer tempo, por um novo lugar
Não há condições ideais em um jogo de xadrez
Se descuidar, qualquer peão pode acabar com o rei
O tempo virá para nos maturar e não será fácil
O tempo virá para nos acomadar e será fóssil
Faz parte
Decidir antes de conhecer
Comprar sem saber porquê
Querer só porque todos querem
Faz parte
Querer mais antes que o que se tem acabe
Absorver sem muita profundidade
Faz parte achar que qualquer coisa é arte
Faz parte ter certeza
Disfarçar defeitos para vender a máquina
Se isentar de responsabilidades
Quando explodir o caldeirão da fábrica
Faz parte
Um rótulo para resumir
O que a gente não tem tempo para entender
Um resumo para existir
Já que é pouco tempo para se viver
Faz parte
Solos de guitarras sobre noites intermináveis
Discursos longos em defesa de atos questionáveis
Venenos diários em copos descartáveis
Faz parte
Repartir o bolo em diferentes metades
Achar que Justiça tem a ver com ternos, gravatas
E frases memoráveis...
Tudo isso faz parte
Mas não fazemos parte de tudo isso
Qual será a parte que nos cabe...
...desses latifúndios? Dessas virtudes e vícios?
sábado, dezembro 16, 2006
Vestibular
Quem necessita dos ritos de passagem?
Quem precisa de segundas intenções?
Quem necessita das rotas de viagens?
Marcar o X no lugar correto,
é o mesmo que assinalar no espaço onde eles mandam?
Dar a resposta que eles acreditam ser o certo
é o mesmo que está certo a espera da oferta e demanda
Entrar no mercado...
...é dinheiro para se vender ou para comprar?
Ganhar terreno e espaço
...é se reduzir ou viver a se ampliar?
Quem jogou a rede? Quem precisa ser pego por ela?
Quem ainda vê o sol se pôr pela janela?
Quem de fato se opõe, no discurso e na ação...
Quem de fato se dispõe, com calor e coração...
Quem de fato precisa responder as provas?
Quem de fato necessita aposta no cavalo ganhador?
Quem já viu a chance passar selada
E de fato acha que perdeu algo porque não a montou?
Foram meus erros mais perfeitos
Que me fizeram colidir com você
Eu não estaria aqui se minhas solas não derrapassem tanto
Se acertasse sempre de primeira
Se fosse sempre como eu sempre quis
Se eu não tivesse abandonado tantas certezas
Eu não colidiria com teus olhos sobre mim...
Hoje eu louvo os meus erros
Segundas intenções altruístas
Quando chega em casa sem saber onde se acomodar
Teu quarto fica infinito...
...teu olhar não encontra horizonte onde descansar...
Nenhum dos teus deuses foi lícito
Todos ameaçaram te abandonar
Parece estranho, o mundo e suas segundas intenções altruístas
Oferecem serviços de primeira...cobram mais caro dos turistas
E tudo o que a gente oferecer é pouco
Seja sangue, suor, silêncio ou sufoco
Em meio as tuas angústias e dúvidas, o que resta dizer
Só possui certeza de tudo, quem realmente sabe pouco
E não ache que eu estou ficando louco
Resolvi ir pela rota de colisão
Não é opção, muito menos falta de escolha
Quem vai entender que é a minha condição
...condição natural...
...caçar interesses ocultos na coluna social...
?qual a razão de olhares tanto para o silêncio?
Se o que se esconde lá você pode sair gritando
Ainda que ninguém te escute, ou esteja vendo
Não há outra forma...não há outro plano...
E teu olhar não encontra horizonte onde descansar
Nenhum dos teus deuses foi honesto
Todos eles fingiram existir, para você se ocultar
...às vezes isto até deu certo...
...hoje não vai dar...
E não ache que eu estou ficando lúcido
Resolvi ir pela voz da paixão
Não é opção, muito menos falta de escolta
Quem vai entender que é o meu coração
...coração natural...
...sem etiquetas ocultas no encarte do jornal...
(E quando vier a chance que nos concedem
Vamos responder as enquetes?)
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Tempos de tempestade
Seria fácil sair para voar quando a previsão der bom tempo
No entanto, a gente bota a cara na necessidade de seguir em frente
Independente de mar calmo, tempestade e trânsito lento
Não vou mais perder meu tempo te odiando
Só paro para o que for idéia...o que não for, eu sigo andando
Não vou debater pessoas...
Nem me defender de ações más ou boas
Se for pra cair, só eu preciso saber...amanhã levanto
A vida não estaciona para consertos
É na corrida que se faz o reabastecimento
Não vou desperdiçar movimentos
Fazendo de pequenas perdas, grandes danos
O elemento do meu coração é a tempestade
Agora que estou aprendendo a me blindar
Sou assim mesmo, um tanto quanto bipolar
Há explosões que acontecem sem alarde
Estou aprendendo a sair do ar...quando você vem me orbitar
Além do mais prefiro doar sangue a fazer sangrar
Jornalistas
Exército pronto para atacar
Vão invadir...vão estar sempre por perto
Mesmo quando não ameaçam voltar
Eles não nos deixam em paz
São bons demais nas mensagens subliminares
Entram pela televisão, bancam cartaz
Estão perambulando a calçada, estão em nossos lares
Sabe-se lá, quem eles são?
Não possuem rostos, mas gravam em nosso coração
Não há blindagem que detenham
Mesmo os mais sábios não escaparão
Estamos sempre amarrados
No meio termo, a espera do que vai acontecer
Até o senso-crítico se dobra ao falso bom senso
Dos comentaristas de esporte na TV
Todo mundo tem uma paixão bancada em outdoors
Para por no carro da feira, para pintar na bandeira
Mesmo com toda a inteligência e com direito a voz
Eles estão em todo lugar...pegam no ar ou pela etiqueta
São cães ferozes com olhar de quem caiu da mudança
São aliados algozes alimentando nossa falsa esperança
De que vai mudar, de que vai ser melhor...
....com a mais nova invenção...
...um novo programa de computador...
...um novo veneno letal...uma nova injeção...
Ás vezes até bancam ter ideais
Para incentivar o modo de produção
Parecem estar do lado contrário
Enquanto marcham com a automação
Não deixam digitais, não passam recibo
Só recebem da contravenção
terça-feira, dezembro 12, 2006
Faltas
Passou batido enquanto a gente só conversava
Tá faltando aquele verso da poesia
Que a gente esqueceu de colocar em cartazes, na praça
Foi esquecimento ou falta de coragem
A gente andou confundido tantas mentiras com miragens
Que hoje não dá mais para acreditar na igenuidade de ninguém...
Moça da TV
Que o mundo andou e ficamos do outro lado
A espera de acontecer
O capital não captou nosso corpo ali parado
Quem diria que o futuro não viria
Nossa guerra fria só queimou soldados
Quem diria que a luz se apagaria
E o escuro deixaria visível
Tudo o que enxergamos calados
Enquanto a moça da TV me paquera
Mostrando a cerveja
Nunca existiram “as fichas sobre a mesa”
Enquanto consumíamos uísque para ideais nunca consumados
Pode até ser que eu seja mesmo louco
Por acreditar que pequenos gestos podem ser inflamáveis
Eu continuo a viver ainda por muito pouco
Chegar em casa e aproveitar o resto do dia ao teu lado
Não vejo lucro em tanto correr
Quanto vale mesmo a sola dos nossos sapatos?
Quando vejo a moça na TV
O que será dela quando voltarem às tendências do ano passado?
Pode até ser que eu esteja mesmo louco
Ao querer que o amor seja mais forte que o Estado
Eu continuo aqui vivendo por muito pouco
Mas é tudo o que preciso para acordar esperançado
Dia de citações...
domingo, dezembro 10, 2006
Especialmente para você e em larga escala
A esquecer o valor e só pensar no preço
De tudo o que nos ensinam a querermos
Clique aqui para calcular o frete e saber o endereço
Para onde estamos indo sem querer
E assim, a gente anda meio que quase morto
Atrás de alguma nova moda que pareça porto
Até que chegue a hora de nos mandarem a outro lugar
Entre, compre e se sinta feliz
Caso não possa, roube, mas não deixe de ter
É pré-condição de tudo o que um dia já quis
Para que possa ser visto, para que se possa perceber
É assim mesmo...é tão estranhamente normal
Que a força bruta esteja oculta nos sorrisos de uma modelo
Que lhe confronta com os piores pesadelos
Ao te colocar em frente ao espelho...tão patético e natural
(Este é cara é mesmo você? O que você enxerga?)
Estão nos acostumando a querer cem por cento
Nos oferecendo sempre menos, no discurso do melhor estar por vir
...câmbio automático ou câmera integrada...
...no pátio da indústria ou do lado da calçada...
(Foi só pensando em você, que fizemos a novidade em larga escala)
Causa
Agora que acabou a festa
Em instantes a madrugada ficou deserta
Voltar para casa te causa tanta dor?
Em teu quarto o escuro deixa tão visível
O prazer foi tão previsível
A noite foi longa para abrigar o que não durou
Teus fantasmas ainda arrastam correntes
E teus amigos só estiveram contentes
Enquanto tivestes algo de valor
Hoje em dia, eles batem em outras portas
Não constroem estradas, aceitam rotas
Por isto que voltar para casa te causa dor
A dor da tarefa de ouvir o silêncio
Como se mais nada existisse ao redor
Onde você se encontra?
sábado, dezembro 09, 2006
A casa sem você
Ela partiu, deixando aceso um último cigarro
A fumaça na sala, espalha um mundo que nunca vem
Ela enlouqueceu...
....me deixou num mundo que eu pensei que fosse sonho
E logo eu, que sempre achei que ela me quisesse o bem
Eu acordei, sem saber o que dizer
Quanto mais sinais segurança, mais frágil fica o nosso ser
Quando se armam as armadilhas
Que sempre estiveram ali e nunca ousamos ver
Há um tempo atrás eu tinha tanto o que lhe falar
Talvez sobre coisas que nunca mais vou poder revelar
Talvez quando você voltar nem faça mais tanto sentido
Porque já começo arrumar a casa sem você
Malas Prontas
?Será que você me entende? Será que é preciso entender?
Bate a necessidade de ir embora
No tempo certo, que só o tempo sabe explicar e colher
Não há nada que resuma, nem há remédio
Cedo ou tarde vai dar a hora, estamos sempre de partida
Viver é eterna despedida
Apesar das memórias, passagens só de ida
Se eu sair sem falar nada, o que meu silêncio dirá para você?
Será que você saberá que é por não ter mais nada a dizer?
Quase nunca o adeus é a última palavra
Na maioria das vezes enterra na alma o que sobrou
Mas não vivo de sobras, nem sombras...não é este quem sou
O fato é que eu estou sempre na estrada
Meu lar está em cada curva errada, que o tempo trata de acertar
Foram meus erros mais perfeitos que me trouxeram aqui
E apesar de amanhã estar em outro lugar...
...você sempre esteve, está e estará em mim...
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Blindagem
Quando furam todos os alarmes
Mãos ao alto, passe os ideias, esperanças e fé
É a gente que comunga com a camuflagem
Quando aceita sem fazer alarde
Por um corpo mais magro, um seio mais farto e quem sabe amor
Quem está dentro? Quem ficou de fora?
O que é fato? O que de fato é história?
Então me digam qual é a senha
Não quero por displicência digitar
Qualquer mundo que por acaso nos venha
Sem plano B
Silêncio dos Inocentes
Como se tivessem assinado um trato
Como se aparecessem por trás dos mortos, no retrato
Ainda que não façam parte dos que estão no palco
Nem é preciso decorar o texto...basta ter um pretexto
Pra permanecer calado, mesmo sem acreditar em nada ao lado
Inocentes ou culpados...objetivos e objetos rastreados
Alguém que vai dizer que é o meio
Alguém vai culpar a chance que não veio
O fato é que estamos amarrados e queremos tudo sem receio
A fome na calçada dos escritórios de escravos
Nos acostumamos aos fatos; recolhemos pedaços...perdemos espaços
Não enxergamos quase nada que existe
Entre me agradar e te agredir, derrubamos o limite
E toda felicidade é vendável; chegamos ao futuro ao lado
Alguém que vai dizer que é o meio
Alguém vai culpar a chance que não veio
O fato é que estamos armados e matamos sem receio
Do lado de fora da janela do teu carro
Descarrila-se o trem do progresso
Entre marabalistas no sinal fechado
Entre as coisas todas que fogem a tua vista
Alguém vai dizer que a tua chance não veio
Alguém vai te ensinar a culpar o meio
Este será teu cartão de visitas
...quando entrares calado na dança que ganha a pista
sábado, dezembro 02, 2006
Corp’alma (Luis Vilar/ Manaíra Aires)
Meu corpo muda de endereço, minha alma não
Parece uma história de amor e desencontros
Minha alma para um canto...meu corpo para um pranto
Ele perdeu o endereço de si mesmo
Ela encontrou na carta sem endereço
O remetente que havia se perdido a esmo
Numa rota épica aberta a imaginação
Num deserto sem rota certa, cheio de insinuação
Ele havia se perdido em sua memória
E já não podia mais reconhecer na fusão de sentimentos.
Ele se perdeu nas noites de insônia, atrás de histórias
No abismo profundo do sono forçado
Ele, nos cafés que o acordavam no frenesi de uma redação de jornal
Pensado nas letras a próprio punho que ela conhece tão bem
Ela se perdeu nas lembranças com o mesmo formato das letras...o original
Ora alongadas como os sonhos de outrora,
Ora ligeiramente afastadas como a proximidade que os distanciou.
Ora corpo, na hora da alma
Ora alma, na hora em que é preciso ser duro como pedra
Ora pressa, na hora da calma
Ora calma, em que tudo o que se poderia perder já era...
Ele, no formal jeito de lidar com os outros
Sem querer saber da sua própria lida.
Ela, sem querer saber da ignorância dos outros.
Eram uma troca, uma mutação
Em que ela passou a se reconhecer nos distúrbios de cansaço dele
Evidenciados pelas letras trêmulas.
Ele é quem havia se perdido, mas foi ela quem se reencontrou nestas perdas.
Do exagero
Nunca deixei a calçada deste lugar
Desde que você resolveu partir para conquistar o universo
Eu nunca soube ao certo se você voltaria
Não existem coisas mais exageradas que promessas e poesias
Em um poema o amor ganha lente de aumento
Qualquer segundo ganha a eternidade de um momento
Por isso quando digo que rabisquei mil folhas ou mais
Talvez sejam duas frases ou três há tanto tempo atrás
Mas a verdade não fará você se sensibilizar
Ao ponto de resolver voltar; ao saber que sempre estive aqui
...neste lugar...
Ela deu singeleza ao mundo

Dona Marinita se encontrava doente há mais ou menos uma semana. Ela havia contraído tétano, depois que levou um corte na cabeça. Chegou a ser internada no Hospital de Doenças Tropicais, mas na manhã de hoje não resistiu. Dona Marinita – conforme a arquiteta e amiga Adriana Guimarães – não havia tomado as vacinas antitetânicas.
A arquiteta comentou a perda para a História da cultura alagoana e ressaltou a importância de Dona Marinita para o artesanato do Estado. Falou ainda que o tétano venceu Dona Marinita, por conta dela ser uma pessoa muito frágil e magra. “Pelo menos ela foi reconhecida nacionalmente e recentemente ganhou o maior prêmio do artesanato brasileiro”, destacou.
Por conta do tétano ser altamente contagioso a equipe médica que acompanhou a artesã explicou que é recomendável o enterro o mais rápido possível, por esta razão Dona Marinita deve ser sepultada ainda na tarde de hoje, em Marechal Deodoro, onde já se encontram familiares e amigos.
Marinita era filha única e aprendeu o bico Singela com a mãe, dona Filó, e após a morte desta, a artesã praticamente se enclausurou em casa e aperfeiçoou o bico. Tornou-se conhecida e entrou para o IPHAN por meio da arquiteta Adriana Guimarães, que sendo muito amiga de Dona Marinita, a ajudou na divulgação de seu artesanato.
A alagoana foi a primeira mulher inscrita no Programa de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Brasil, e figurava ao lado do samba de roda do Recôncavo Baiano e da Festa de Ciro de Narazaré. Neste momento, nossa equipe de reportagem tenta contato dom a arquiteta Adriana Guimarães, para saber maiores detalhes sobre o velório de Dona Marinita.
A renda singeleza é apenas uma das várias tradições culturais brasileiras em fase de catalogação e, em alguns casos, tombamento. Há algum tempo se fala de proteger bens culturais como conjuntos arquitetônicos, monumentos e obras de arte dos efeitos do tempo e da modernidade, para que as gerações futuras possam ter acesso a eles - e por conseguinte à história.
Porém, a partir dos anos 90, intensificou-se a idéia de conservação de um outro tipo de ativo cultural, composto pelas tradições e conhecimentos populares, denominado patrimônio imaterial. São manifestações que passam de geração para geração de forma oral, ou pela experiência, como o artesanato, a culinária, as músicas, as festas, as crenças, entre outros itens folclóricos.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Outro lugar (se deixar levar)
Perder os sentidos...me reencontrar em algum lugar
Sem me pregar para Cristo...sem cruz e sem altar
Apenas por estar vivo; apenas respirar
Ás vezes eu preciso de um esconderijo
Um abrigo para que todos possam me visitar
Longe de tudo...perto de qualquer lugar
Eu tenho poucos amigos...tenho o que preciso
Nunca soube ser preciso ao revelar o que sinto...
....mas nunca soube esconder....
Ainda que sem palavras; ainda que sem querer
Entre o peso na consciência e a necessidade de voar
Entre e feche a porta...precisamos de um novo ar
Quanto mais envelheço, menos possuo certezas
Já mudei tanto de endereços e estive sempre no mesmo lugar
Ás vezes eu preciso me deixar levar
Como quem anda sempre em busca, do que o faz ficar
Não fico só no escuro...não deixo nenhuma luz me cegar
Não fico só no futuro, também vago por outro lugar
A esfinge

Adormeço em noites que não encontram fim
Corre cego pelas minhas veias
Uma espécie de vírus que é tudo o que há em mim
Minhas armas líricas disparam em ti para me ferir
Já sinto frio, sinto medo...
Sinto que há muito tempo a ingenuidade se perdeu
Vejo um vampiro em frente ao espelho
E o que rega esta dor é sangue meu
Te mando beijos e gestos de despedidas
Tendências suicidas
Que me mantém suspenso neste lugar
Apesar do calibre na cabeça, amanhã vou voltar
....eu sei que vou voltar...
Já não consigo me deixar solto no ar
Nas noites de insônia, os pesadelos não me deixam dormir
E a gente finge que a esfinge se revelou por si
Mas são tantos planos...tantos segredos
Há tanto tempo ao teu lado, mas de fato nunca mais lhe vi
O que anda acontecendo
Se antigamente a gente acontecia andando
E hoje tem tanto medo de sair?
Joelhos

As ciências que vasculham o coração
O sentido imposto pelo concreto
Nas cidades, nas infelicidades, na televisão
As sombras, as sobras, o silêncio
Os incêndios, os incidentes, os indigentes
Os que sobraram, ficaram de fora...não voltam mais
A dor dos joelhos dobrados ao sem nexo
A fé manipulada por explícitas e subliminares intenções
O direito ao contraditório, o dever de estar certo
O prazer na carne...a carnificina das paixões
Do que é feito a nossa história?
Além da vaidade, da sobrevivência e do sexo...
Além da contradição
Do que é feito a nossa história
Além do que acaba, recomeça e nos renova
quinta-feira, novembro 30, 2006
Aos léxicos
Como nós (Luis Vilar/ Manaíra Aires)

Pessoas como nós abrem velas na tempestade
Semeiam em campo minado, sem os olhos atentos ao que vai nascer
Pessoas como nós já parecem saber
Que tudo tem sua obsolescência e que dela nasce um início
Ainda que com novas intempéries e novos vícios
São pessoas como nós...com muito a dizer e pouca voz
Que guardam sonhos nas gavetas...jogam poesia sem ideologia
Desenham com tijolos nas calçadas o que esperam do amor
Enquanto tempestades, nos acolhem ou dispersam
...são pessoas como nós...
De peito aberto, embora as escolhas que fizemos sejam dolorosas
E tudo o que deixamos não entendam nossa partida...ou nossos poemas
Serão os olhos alheios...ou a ilha de nossos temas?
E por mais que pareça uma citação absurda
Ás vezes enfrentar a vida de peito aberto não deixa de ser uma forma de fuga
Para pessoas como nós...
Estão num teatro mágico a espera de iniciar...
Vocês

Vanessa...
Uma canção para dizer tudo é muito pouco
Só quem sabe do rio que a gente atravessa feito louco
Pode afirmar que “o amor é um artigo de luxo” em dias superficiais
Em que a gente chega e casa e se refugia um no outro
...um abrigo anti-bomba, calendários, regulamentos e comerciais...
A espera de que amanhã seja melhor por querermos muito pouco
Escorando sonhos na honestidade de quem ainda luta por paz
Vanessa...
Se não fosse teus olhos talvez já estivesse morto
O sentido que nasce em nossa filha feito um mundo novo
A cada palavra que ela aprende, cada passo, cada graça
Quando eu chego em casa e meu refúgio são duas meninas, dois rostos
A cidade vira interiorana sem prédios, com inocência de algumas praças
A espera de que amanhã seja melhor pelo pouco que alimenta nossos corpos
Escorando sonhos na coragem de quem ainda luta com alma
Enquanto eles têm tudo, eu tenho vocês
Nestes dias, vejo como eles não têm quase nada
Beatriz...
Uma canção para dizer tudo é muito pouco
Só quem sabe o quanto o teu sorriso me fez novo
Pode afirmar que “amor é um artigo de luxo” entre banais
E quando chego em casa que nos refugiamos um no outro
Ainda que você ainda não saiba o que significa refugiar
Espero que amanhã seja melhor para que você precise de pouco
E que este pouco seja o muito que estamos dispostos a dar
Beatriz...
Se não fosse teus primeiros sons talvez já estivesse morto
O sentido que nasce em tua mãe feito um mundo novoA cada palavra que reaprendemos, a cada gesto, a cada estrada
Forte flerte fatal

Forte flerte fatal
Quem quis me ver cair, não pode rir agora
Volto sempre mais forte
Do que não me mata na hora...
Será sempre assim, já conheço bem a história
O que não se pode explicar
Só nos resta sentir, ou então ir embora...
A vida se insinua por aqui
Há dias em que tanto faz ficar em casa ou sair
Se o que buscas está em ti...
Quem poderá nos julgar pelo que não pode sentir?
Só eu sei do fundo do meu poço sem fim...
Não pare por aqui, esperando passar a verdade
Quem mergulha raso em si, se afoga em mediocridade
O trem da liberdade não pára, para quem não tem coragem
Não limite, suporte ou redes, apenas decolagem
Para onde quer que se queira ir...
Ando do outro lado da calçada da indústria
É alto o preço e prevista a multa
Sob olhares atentos que não enxergam nada de si
Mas não há outra forma de ser
Sou assim...
Para quem ficou de pé, para quem quis me ver cair...
quarta-feira, novembro 29, 2006
Carta ao Hezbollah

Negócio fechado...estrada aberta
Minhas orações em casas desertas
Começaram a semear ilusões
Novas vidas onde menos se espera
Requentando sonhos, recriando canções...
Melodias para depois do canto do cisne
Sabe-se lá o que virá nos encantar?
Atento ao que nos incide..
...de pequenos gestos ao Hezbollah...
Triste por tantas coisas
Mas esperançosos por continuar
Corações: armas do nosso exército
Nossas almas: couraças para transpor o deserto
Mãos para quem chegar perto
Bocas para enfim transpirar...
...pensar sem âncoras ou velas para chegar...
Parece mesmo que estamos ao contrário
Feito “dom quixotes” guardados no armário
Ainda nos machucamos ao ver TV
Tropeçamos em sonhos
Derrapamos em campanhas presidenciais
Formamos uma milícia que nunca irá se encontrar...
Um grupo terrorista que implode a si mesmo
Enquanto deixa os oficiais passarem por nós
Orgulhosos de acumularmos silêncio
Enquanto quem menos tem palavra possui mais voz
Luz e sombra

Aos chatôs do meu Brasil varonil, verbas governamentais, sombra e água fresca. Aos demais, trabalho escravo e eterno cio...nossas prisões, nossas etiquetas...sejam etiquetas sociais, ou das camisas Lacoste...
A bandalheira encheu o saco...para piorar, não há esperança de que nada mude. Ao espelho confuso, que mais deforma do que reflete deram no nome de mídia. A qualquer cultura institucionalizada deram o nome de geração...foi assim da "Coca-cola" ao "Ipode"...Será que pode? Sei lá...
Não há mais graça nas gracinhas da TV...para quem sofre de overdose de lucidez...atirem os lançadores para cima...sinais de S.O.S...quem sabe uma arrebatação...quem sabe um Deus...no mais, futebol e cachaça...sabe porque? Ninguém é de ferro amigo...
E quanto a tudo que os jornais escrevem é só resumo. E já dizia o poeta: "O principal fica fora do resumo...o principal...o cara-de-pau...e a gente levando pau na cara!!!
terça-feira, novembro 28, 2006
Um ateu em busca de Deus...

Durante algum tempo em minha vida sempre acreditei - piamente - que as coisas que a ciência não poderia explicar, não possuíam o direito de existir. Uma posição assumidamente niilista que sufocava - por vezes - uma vaga emoção agnóstica que percorria em mim.
Devoto de Nietzsche e – paradoxalmente – um fanático por destruir mitos que nos levam ao fanatismo, abri caminho, por dentro da minha própria vida, numa cruzada insana contra qualquer centelha de fé que pudesse surgir e por a perder a forma racional e pessimista. Foi inútil até aqui...
Posso

Posso comparar o antes, com tudo que nasceu depois de você
Posso te mostrar um jardim, que sempre esteve em mim e nunca cuidei
Posso te dizer da força que vem me ajudar a sobreviver
Posso te revelar o quanto choro quando penso em te perder
Mas quando a tarde esfria e tudo fica cinza sem que eu possa te ver
Sei que não posso te mostrar o que de melhor você me fez
Não estão nas palavras soltas, telefonemas...
...ou nos passeios do nosso mundo pequeno-burguês
Estão distante de qualquer poema
E cai em mim como uma saudade de tudo o que não se fez
Quando você sai, não lamento só a sua ausência
Mas sinto falta de mim mesmo em meio a tudo que hoje sei
A fortaleza e as pequenas memórias

O aguardado livro de José Saramago – ao menos aguardado para mim – chegou às livrarias. Chama-se As Pequenas Memórias. Como sempre ler Saramago sempre me remeteu a mim mesmo. Apenas dois escritores me dão esta sensação de tradução simultânea: José Saramago e Hermann Hesse. No entanto, desta vez foi diferente da obra anterior Intermitências da Morte, onde ele apresentava uma cidade onde ninguém morria. As Pequenas Memórias soa absolutamente real. Não é uma paródia, a qual os leitores já haviam se acostumado desde A Caverna (um dos mais belos livros com o qual já tive contato...vale ressaltar que esta visão é extremamente pessoal e não me responsabilizo pelos que resolverem ler o livro e o detestarem).
Mas enfim, vamos ao que de fato importa. As Pequenas Memórias nos remete ao tempo em que as tentações do mundo andavam de mãos dadas com a nossa ingenuidade. Quando ainda estávamos sobre uma imensa caixa mágica cheia de experiências que conhecíamos, sem muitas vezes sequer entender, ou então estarmos preparados para elas. Além do mais, a grande beleza das “primeiras vezes” de nossas vidas é que de fato, nunca estamos preparados para elas. Graças a Deus. A melhor coisa do amor à vida é que torna justificável, aceitável e até mesmo louvável e admirável nossos grandes erros por amor.
Quando comecei As Pequenas Memórias imaginava encontrar um Saramago frágil, que viva de pequenos escritos, numa ilha distante dos que possuem a mesma idade. No entanto, o livro trata de um garoto comum que crer que suas experiências são nitidamente incomuns, sem saber que todos passam pela mesma coisa. Incrível: minha adolescência e infância foram assim. Sempre fui excessivamente tímido e um tanto quanto medroso. Não medo dos outros, mas de mim mesmo. Da forma como interpretava as coisas. Achava que o meu olhar era agudo demais. Escondia-me então nos livros, nas poesias (que por algum motivo voltei a escrever desde o mês passado, depois de uns dois anos sem tocar na pena). Senti o cheiro do meu medo, nas folhas de Saramago...
Qual era a porta do mundo que eu fechava ou que se fechava para mim? Qual caminho me trouxe ao meu mal sagrado, as conclusões falíveis e a eterna armadilha socrática do eternamente parir a si mesmo? Carrego um defeito incrível e inconfessável, mas que revelo sem pudores: sempre me dei melhor com os livros que com as pessoas, mesmo não lendo tanto assim e não sendo nenhum intelectual (palavra da qual – diga-se de passagem – tenho asco). Ao ler Saramago, me indago onde este defeito começou...Ás vezes inclusive confundo timidez e medo e faço da arrogância uma defesa, que ao olho nu bem que se passa por auto-confiança. Não sei, por exemplo, onde quero chegar com este texto...aliás, me pergunto se há onde chegar...se é preciso chegar...
Minhas memórias de hoje recebem o adulto analisador e catalisador dos fatos e cada vez mais se distância da criança sensorial e contemplativa. Este adulto, às vezes joga a culpa de tudo nos pilares óbvios do desenvolvimento humano: aquilo que Freud já descreveu melhor que eu. Não vou entrar em detalhes. Mas, longe do óbvio ululante está um terreno perdido dentro de mim que não encontro. Um espaço que nunca submeti a terapia nenhuma. Que tem sua porta selada, trancafiada. Algo que Hermann Hesse, em seu Lobo da Estepe chamou de Teatro Mágico Só Para Iniciados.
Este algo subjetivo pode até ter vindo de antes de qualquer experiência que consumi, ou que tenha me consumido. Porém, apesar de tudo que há de errado neste lugar que não conheço, tenho que reconhecer: a fragilidade me fez querer uma fortaleza sólida, ainda que não tão segura assim, e distante dos prazeres epicuristas e pós-modernos. O que me faz me curvar sempre sobre uma das mais belas frases da minha esposa Vanessa Alencar: “O amor é um artigo de luxo”. Pois é, longe de tudo que custa caro neste mundo. A simplicidade deu um real valor ao amor, que me acompanha desde o meu gênesis, seja meu pai, minha mãe ou minha filha. Eu poderia até ter tido outro caminho até aqui, mas dificilmente enxergaria com a mesma exatidão esta fortaleza que alguns chamam de amor, em seus mais amplos significados.

