
O aguardado livro de José Saramago – ao menos aguardado para mim – chegou às livrarias. Chama-se As Pequenas Memórias. Como sempre ler Saramago sempre me remeteu a mim mesmo. Apenas dois escritores me dão esta sensação de tradução simultânea: José Saramago e Hermann Hesse. No entanto, desta vez foi diferente da obra anterior Intermitências da Morte, onde ele apresentava uma cidade onde ninguém morria. As Pequenas Memórias soa absolutamente real. Não é uma paródia, a qual os leitores já haviam se acostumado desde A Caverna (um dos mais belos livros com o qual já tive contato...vale ressaltar que esta visão é extremamente pessoal e não me responsabilizo pelos que resolverem ler o livro e o detestarem).
Mas enfim, vamos ao que de fato importa. As Pequenas Memórias nos remete ao tempo em que as tentações do mundo andavam de mãos dadas com a nossa ingenuidade. Quando ainda estávamos sobre uma imensa caixa mágica cheia de experiências que conhecíamos, sem muitas vezes sequer entender, ou então estarmos preparados para elas. Além do mais, a grande beleza das “primeiras vezes” de nossas vidas é que de fato, nunca estamos preparados para elas. Graças a Deus. A melhor coisa do amor à vida é que torna justificável, aceitável e até mesmo louvável e admirável nossos grandes erros por amor.
Quando comecei As Pequenas Memórias imaginava encontrar um Saramago frágil, que viva de pequenos escritos, numa ilha distante dos que possuem a mesma idade. No entanto, o livro trata de um garoto comum que crer que suas experiências são nitidamente incomuns, sem saber que todos passam pela mesma coisa. Incrível: minha adolescência e infância foram assim. Sempre fui excessivamente tímido e um tanto quanto medroso. Não medo dos outros, mas de mim mesmo. Da forma como interpretava as coisas. Achava que o meu olhar era agudo demais. Escondia-me então nos livros, nas poesias (que por algum motivo voltei a escrever desde o mês passado, depois de uns dois anos sem tocar na pena). Senti o cheiro do meu medo, nas folhas de Saramago...
Qual era a porta do mundo que eu fechava ou que se fechava para mim? Qual caminho me trouxe ao meu mal sagrado, as conclusões falíveis e a eterna armadilha socrática do eternamente parir a si mesmo? Carrego um defeito incrível e inconfessável, mas que revelo sem pudores: sempre me dei melhor com os livros que com as pessoas, mesmo não lendo tanto assim e não sendo nenhum intelectual (palavra da qual – diga-se de passagem – tenho asco). Ao ler Saramago, me indago onde este defeito começou...Ás vezes inclusive confundo timidez e medo e faço da arrogância uma defesa, que ao olho nu bem que se passa por auto-confiança. Não sei, por exemplo, onde quero chegar com este texto...aliás, me pergunto se há onde chegar...se é preciso chegar...
Minhas memórias de hoje recebem o adulto analisador e catalisador dos fatos e cada vez mais se distância da criança sensorial e contemplativa. Este adulto, às vezes joga a culpa de tudo nos pilares óbvios do desenvolvimento humano: aquilo que Freud já descreveu melhor que eu. Não vou entrar em detalhes. Mas, longe do óbvio ululante está um terreno perdido dentro de mim que não encontro. Um espaço que nunca submeti a terapia nenhuma. Que tem sua porta selada, trancafiada. Algo que Hermann Hesse, em seu Lobo da Estepe chamou de Teatro Mágico Só Para Iniciados.
Este algo subjetivo pode até ter vindo de antes de qualquer experiência que consumi, ou que tenha me consumido. Porém, apesar de tudo que há de errado neste lugar que não conheço, tenho que reconhecer: a fragilidade me fez querer uma fortaleza sólida, ainda que não tão segura assim, e distante dos prazeres epicuristas e pós-modernos. O que me faz me curvar sempre sobre uma das mais belas frases da minha esposa Vanessa Alencar: “O amor é um artigo de luxo”. Pois é, longe de tudo que custa caro neste mundo. A simplicidade deu um real valor ao amor, que me acompanha desde o meu gênesis, seja meu pai, minha mãe ou minha filha. Eu poderia até ter tido outro caminho até aqui, mas dificilmente enxergaria com a mesma exatidão esta fortaleza que alguns chamam de amor, em seus mais amplos significados.

2 comentários:
eu quero ler. empresta? tenho medo de ler as mais novas dos fodões. o bibi garcia deixou a desejar no último, com aquele título propagandístico. pareceu editora pressionando. achei.
tô por aqui, querido. :*
Empresto sim, claro!!!
Luis
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