terça-feira, fevereiro 13, 2007

Com base em Pessoa

Ao meu lado, todos sempre andam em linha reta. Os sorrisos que me espreitam são tão superficiais, quanto perfeitos. Os rostos não apresentam hematomas, nem sinais do tempo. Os disfarces são plásticos, maquiagens, palavras vãs ao vento. Nenhum dos que caminha ao meu lado levaram porrada. No altar da arrogância, um podium vislumbra aqueles que são campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, quase todas às vezes porco e sempre vil, figurei como o errante caminhante parasita, que mergulha nos próprios erros, de forma indesculpavelmente suja. Eu que sempre perdi a paciência, por trás e defronte as câmeras, não poupei palavras, joguei aos inimigos meus pontos fracos, meus erros. Meus santos inimigos, que nunca tiveram defeitos.

Eu sou o ridículo, o absurdo, o que pisa de botas imundas no tapete das etiquetas. Sempre de forma grotesca, mesquinha, submissa e por vezes arrogante. Até o meu silêncio me expõe em carne viva. Sim, eu me exponho, me jogo ao mundo. Meu Deus, eu erro tanto e nunca soube conviver com meus erros. Por esta razão, tenho sofrido os piores enxovalhos, sempre calado, em meio aos falantes honestos, que nunca erram, que são sempre íntegros.

Se resolvo falar, o que penso me torna mais ridículo ainda. Eu sou cômico ao assumir que envelheço sepultando certezas. Quanto mais anos acumulo, menos sei. Diferente dos meus amigos, sempre espertos e lúcidos em suas verdades inventadas, sob aos quais constroem seus prédios de poucos andares, mas com ânsias de serem, ou até mesmo alcançarem o sol.

Eu que sou vergonhosamente um fracasso financeiro, pago a conta dos que levantam reclamando da comida que ofereço. Sofro da angústia das pequenas coisas ridículas. Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Meus amigos sim, estes nunca tiveram um ato ridículo. Sempre tiveram a grama mais verde. Sempre foram príncipes em todo uma vida. Dignos de honras e aplausos.

Nunca conheci um deles que tivesse uma infâmia em suas confissões. Diante das violências, nunca conheci um que confessasse sua própria covardia. São todos o ideal de si mesmos em suas palavras. Eles falam para quem os ouvem. Os que os ouvem falam a mesma linguagem e por isso os ouvem, só para poderem falar. É a lógica dos perfeitos. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos...

O mundo lá fora é feito de semideuses e suas moscas azuis e seus puxa-sacos. Aqui no esgoto, o mundo é cinza e ecoa pelos canos podres uma só pergunta: “Onde é que há gente de verdade no mundo?”. Longe das plásticas, das maquiagens, da superfície, dos sorrisos, da bebida, dos vinhos, da educação...Não há gente de verdade no mundo.

Há como amar sem ser ridículo? Então não há amor? Sempre há traição na esquina...meus príncipes nunca foram traídos. Sempre a Dinamarca apodrece. Meus príncipes amigos não são dinamarqueses. Eles não são nada e por isso são aclamados como tudo. Queira Deus que em seus silêncios, sejam tão príncipes quanto em seus holofotes. E assim, diferente de mim, não sejam sapos, quer seja dentro ou fora da lagoa...quer sejam beijado ou não por princesas...

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