sexta-feira, dezembro 01, 2006

Outro lugar (se deixar levar)

Ás vezes eu preciso me deixar levar
Perder os sentidos...me reencontrar em algum lugar
Sem me pregar para Cristo...sem cruz e sem altar
Apenas por estar vivo; apenas respirar

Ás vezes eu preciso de um esconderijo
Um abrigo para que todos possam me visitar
Longe de tudo...perto de qualquer lugar

Eu tenho poucos amigos...tenho o que preciso
Nunca soube ser preciso ao revelar o que sinto...
....mas nunca soube esconder....
Ainda que sem palavras; ainda que sem querer

Entre o peso na consciência e a necessidade de voar
Entre e feche a porta...precisamos de um novo ar
Quanto mais envelheço, menos possuo certezas
Já mudei tanto de endereços e estive sempre no mesmo lugar

Ás vezes eu preciso me deixar levar
Como quem anda sempre em busca, do que o faz ficar
Não fico só no escuro...não deixo nenhuma luz me cegar
Não fico só no futuro, também vago por outro lugar

3 comentários:

Anônimo disse...

"Já mudei tanto de endereços e estive sempre no mesmo lugar"

Já estive em tantos lugares, mas aprendi a deixar como endereço a minha alma "desendereçada", desinteressada por aquilo que não está a vagar... Não deixei ficar o que fincou em mim uma busca fixa - buscar é fixar no outro o endereço daquilo que se mexe em angústia por faltar em nós.

Anônimo disse...

Eu andei escrevendo umas bobagens por esses tempos e esse teu poema me lembrou um texto meu... Eis abaixo...

Endereçado a alguém sem endereço

Ele perdeu o endereço de si mesmo. Ela encontrou na carta sem endereço o remetente que havia se perdido... Que havia se perdido em sua memória e já não podia mais reconhecer na fusão de sentimentos. Ele se perdeu nas noites de insônia, no abismo profundo do sono forçado, nos cafés que o acordavam no frenesi de uma redação de jornal... Na redação em letras a punho, ela se perdeu nas lembranças com o mesmo formato das letras – ora alongadas como os sonhos de outrora, ora ligeiramente afastadas como a proximidade que os distanciou. Ele, no formal jeito de lidar com os outros sem querer saber da sua própria lida. Ela, no formol gesto que a preservava na sua própria lida sem querer saber da ignorância dos outros. Eram uma troca, uma mutação, em que ela passou a se reconhecer nos distúrbios de cansaço dele evidenciados pelas letras trêmulas. Ele é quem havia se perdido, mas foi ela quem se reencontrou nas perdas dele.

(Manaíra Aires Athayde)

Lee disse...

gostei da intertextualidade com de fé
:)