sexta-feira, março 23, 2007
Luz da razão
Tudo o que não passa de uma ilusão
Tanta gente construindo muro
Para reclamar da solidão
Tanta gente que tem tudo e não tem noção
De que há algo mais importante que a luz da razão
E eu estou calmo no meu canto
Sob o véu do silêncio eu trago uma canção
Eu fecho os olhos e vejo um outro mundo
Onde meu coração desembarcou
Hoje eu sei de tudo
Tudo o que preciso para ser quem sou
Teu sorriso, teu olhar, teu sabor
Lá fora é de concreto prédios, inteligência e emoções
Vamos morar em uma pequena cidade
Nem que seja em nossa sala de visitas sem televisor
Chega um ponto em que ninguém mais acredita
Seqüestraram quem nada tinha e cobraram o mais alto valor
Chega um ponto em que ninguém mais acredita no que restou
Mas eu ainda acredito
Que o tempo vai deixar vivo
Não é por decreto que matarão o amor
Pode até ser excesso de otimismo
Mas quem disse que há outra opção
É acreditando ser possível
que ainda se pode despertar
Quem hiberna tão contente
entre as novidades desse lugar
Vai esquentar o mundo, outras ondas vão passar
segunda-feira, março 19, 2007
Beatriz
Como um satélite especializado em você
Sem me importar em ser distante
Para não te sufocar quando você quer correr
Às vezes tento até tropeçar antes
Vou lembrar de tudo sobre você
Até do que naturalmente com a idade
você vai aos poucos esquecer
Vou te colocar no meu castelo imaginário
Mesmo sabendo que você nunca vai entender
E vai correr pelo mundo a fora
Para sofrer as dores das quais quis te proteger
Vou esbarrar com conselhos em teus ouvidos fechados
Vou levar o nome de quadrado
Estar por muitas vezes redondamente enganado
Para depois você vir me abraçar e perguntar o que fazer
Mas eu quero ser este porto
Sem outro barco por perto a não ser o teu
Onde por último você ancora
Para do jeito que for eu amar você
Porque para mim não há nada
Que eu ame mais que você
Quando chega o fim do dia, que você dorme sossegada
Se você abrir os olhos verá os meus
Porque para mim não há mais nada...
Não digo adeus
Se são frases soltas, ato falho, ou algo da TV
Nunca soube ver o amor acontecendo
Por mais singelo e em carne viva que ele possa aparecer
Meu lirismo sempre foi áspero e contra o tempo
Nunca foi bom em me revelar
Mas tua ausência anda me corroendo
E eu não pude evitar...
De escrever um bilhete tão breve assim
Para dizer que só eu sei que quando eu te conheci
Eu fiquei sabendo uma verdade inédita sobre mim
Eu passei a me conhecer de um ângulo que nunca me vi
Não sei se te chamo de metade ou espelho
Nesta carta tão informal
Meu coração anda mudando de endereço
E eu nem sei se isto tudo é bem ou mal
Medo de ser engano ou ser pouco é natural
E saiba que se um dia tudo ruir e ficarmos sós
Que a gente saiba dizer um ao outro adeus
Sem nos despedir do que houve de melhor entre nós
Então eu não digo adeus
Por mais que o até logo seja eterno
Então eu entrego a Deus
Mesmo que este seja o caminho do inferno
Mesmo que este seja o caminho até mim
E se acabar e despertar a fome
Devorarei o silêncio ao sabor do teu nome
Mas não digo adeus
domingo, março 18, 2007
teu medo modesto
Meu silêncio duro feito muro
Falta fé no futuro
Mas eu já não posso parar
Sem ajuda por perto
Há sempre quem queira mais
Por mais seco que seja o deserto
Há sempre quem só queira sugar
Você finge já nem sentir dor
Teu sorriso esconde teu medo modesto
Você tenta ainda crer em amor
Por mais que o coração seja placo de protesto
Sem saber ao certo o que é bem ou mal
Pais, mães e filhos puxam gatilhos
Entram pela porta do mesmo ritual
O que ainda nos guarda do perigo?
Nós seguimos calados
Implodindo gritos
E a violência por todos os lados
E o nosso lado é sempre o de maior risco
O sangue que talha no cotidiano
Esconde a profundeza do corte
Estamos estacando a hemorragia
Sem perceber para onde o rio corre
terça-feira, março 06, 2007
Maria
...on the road again...
Você se foi antes que eu pudesse dizer
O que eu nunca diria com você aqui
Porque hoje eu tenho tanto medo de morrer
Depois de ter visto você partir
Sua presença física não mais vem me visitar
Mas ainda não consigo acreditar
Que você nunca mais estará aqui
E já faz tanto tempo, mas o tempo sequer passou
Cada vez mais você caminha aqui dentro
Faltam pessoas assim no mundo onde estou
Olha por mim, para quando o quarto ficar deserto
Eu ganhe o dom de criar uma canção
Para sempre ter você por perto
Para nunca ficar só dentro da solidão
Ainda que seja numa simples canção
Nas coincidências que passam despercebidas
Ainda que seja só dentro da minha ilusão
Entre as dores que se confundem com o sentido da vida
Eu quero te ver aqui por perto
Eu vou reaprender a ter ilusões para voltar a ter
...você por perto...
segunda-feira, março 05, 2007
Longe de nós
Para julgar se eles rompem, ou devem voltar
Do lado de fora de quem compõe a canção
É fácil colocar um outro verso no mesmo lugar
Mas não há previsão para tudo o que a noite traz
Quem sabe mesmo de tudo que se capaz
De transformar uma história em pó
Saber a hora certa em que sai o sol
É simples demais falar da altura da razão
Quando não é nosso o coração em rota de colisão
É sempre mais fácil falar...
Em redomas e sem restos a pagar...
Sempre vai ter um mapa pronto pra você
Escrito com cuidado por quem não tem nada a perder
Caso você perca ou corra o risco de ganhar
É fácil traçar estratégia, quando é outro que vai atacar
Longe de nós, todos saberiam exatamente o que fazer
Todos teriam a palavra certa para dizer
Saberiam exatamente onde ficar
Seria de outro jeito...seria em outro lugar
Mas longe de nós, não há a batida de nossos corações
Causa e conseqüências não seguem apenas previsões
Nem tudo fica exatamente onde se estar
Não haveria outro jeito...não existe outro lugar
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Conservantes
Mas não tenha medo
Eu sei que querem quebrar teu coração
Eu sei que querem cegar o teu espírito
Confundindo barulho com canção
Estratégias de guerra com ritmos
Vão entrar pelo rádio e pela tv
Não vão pedir licença para ficar nas paredes da sala
Vão querer levar você pela coleira
Bater em sua cabeça até que você veja estrelas
Vão querer lhe drogar sem picadas de agulha
Na lata de conservas, salsichas e gorduras
E não há como ser salvo
Só resta a integração: loja de conveniência e coração
A explosão que brota do silêncio
Eu estou no meu lugar
Lá fora não há mira, mas todo mundo é alvo
E há quem acredite que será salvo
Esperando sempre no mesmo lugar
Será que há verdade certa para esperar?
Ou será só a luz nostálgica de estrelas mortas
Será que há estrada certa para se pisar?
Ou será só a espera do que já nem importa
Quando escuto o som dos dias
Revelam-me coisas não ditas
Escorrem entre os dedos poesias
Você me olha triste, mas não sabe...
...que eu já voltei de dores que seriam infinitas...
Eu já voltei...
Eu não poderia parar agora
O meu lugar eu faço andando
Não há como contar outra história
A minha música eu faço cantando
Nem sei se é cura ou doença
Mas ainda me incomodam velhas crenças
E por falar em lar...
...é qualquer lugar onde o amor possa me visitar
Fotografia
Do meu sorriso buscar os teus olhos
Quando a própria razão nos desafia
Quando é impossível suportar o dia
E a gente ainda crer em poesia...
Será que existe razão
Para o otimismo no qual a gente ainda espera
Novas fotografias para cenas velhas
Flores que só se abrem para raras primaveras
Na força da emoção, razão não nos inibe
Seguimos cegos ou continuamos firmes?
Não vamos deixar que o tempo nos torne invisíveis
Ainda que o grito seja menor que o silêncio
Ainda que haja mais fumaça que incêndio...
Ainda que sejamos obrigados a acreditar no impossível
Mesmo sem saber ao certo a razão
Dos meus passos buscarem melhores dias
De não ficarmos presos a fotografias
Se é que existe uma razão
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Sob céu nublado
Dou as cores que não vejo lá fora aos versos que invento
O tempo é frio e nunca está do meu lado
Faz calor aqui dentro
Será que água do mar é a mesma do meu aquário?
Será que escafandristas vão desarrumar o meu armário?
Será que meus netos escutarão os ecos que deixo no vento...
Assumo em público as minhas posturas
Viram torturas no meio das pessoas mesquinhas
Ainda que as dores que carrego sejam só minhas
Às vezes vôo leve e livre apesar do peso do medo
Às vezes desato a falar e não escondo os segredos
Sim, eu tenho muitos horrores...
Medo de voar, medo de fechar a porta ao sair
Medo de morrer e Deus existir
Medo de usar de mais a razão e perder a emoção
Sempre estou pensando nos problemas que ainda não vieram
O carro que quebrou, o cano que estourou, os dias que já eram
Chega
Para ter razão de viver, renovar o que já fiz por amor
Ao invés de perder meu tempo a pensar
Em quem me suga sempre assim
Retirando sem notar o que há de melhor em mim
Eu conduzo incapazes ao sucesso vendendo barato o meu dom
No final sou eu quem pago o preço
Por encarar a pior metade do meu ser já perto do meu fim
Se é que há mesmo metade, se é que de fato sou dois ou três
Já que em solidão eu sou mesmo uma multidão em mim
E se for para dar conselhos, venha sem me dizer nada
Se for para trazer espelhos, poupe-me das minhas próprias caras
Nada do que você me diga, eu posso dizer não sabia
Já que sei o quanto escapa fácil um pouco da minha alma a cada dia
Minhas melhores roupas...
...foram gastas em circunstâncias que não me agradam
Minhas melhores louças...
...bancaram jantares para amantes sem graça
Foram tantas pedras quebradas até te encontrar aqui
Só mesmo os teus olhos enxergam o que há de melhor em mim
Coração Bipolar
De rever as cartas
Mudar e se reencontrar no mesmo lugar
É preciso tempo ao abrir os olhos
Para acertar o foco e saber diferenciar
O que é real e o que é desejo no nosso olhar
O que será que ela quis dizer quando resolveu se calar?
Quem vai entender que o que mais ela queria era viver...
...quando resolveu se matar...
Aos que nasceram póstumos
Aos que carregam os mortos
Aos que vão ao mar sem saber nadar
Ontem no fundo do poço; hoje euforia de se estranhar...
Entre o riso e o choro...entre o paraíso e o topo
Olhar monocromático...coração bipolar
O que será que ela quis esconder enquanto falava sem parar?
Quem vai perceber que ela queria mais queria era se vê...
...quando resolveu os espelhos quebrar...
Como quem busca ar puro no fundo do porão
Como quem encanta o mundo, mas dança em solidão
Como quem atravessa o rio em busca de água
Ontem no fundo do poço; hoje euforia em lágrimas
Entre o riso e o choro...entre o paraíso e o topo
Olhar monocromático...coração bipolar
Quando ele se foi...e ela acordou
Nunca mais medo de amar...
Quando ele se foi, que ela mudou
Nunca mais perder por medo de não ganhar
(Ela sabe que quem é livre pode escolher ficar)
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Com base em Pessoa
Ao meu lado, todos sempre andam em linha reta. Os sorrisos que me espreitam são tão superficiais, quanto perfeitos. Os rostos não apresentam hematomas, nem sinais do tempo. Os disfarces são plásticos, maquiagens, palavras vãs ao vento. Nenhum dos que caminha ao meu lado levaram porrada. No altar da arrogância, um podium vislumbra aqueles que são campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, quase todas às vezes porco e sempre vil, figurei como o errante caminhante parasita, que mergulha nos próprios erros, de forma indesculpavelmente suja. Eu que sempre perdi a paciência, por trás e defronte as câmeras, não poupei palavras, joguei aos inimigos meus pontos fracos, meus erros. Meus santos inimigos, que nunca tiveram defeitos.
Eu sou o ridículo, o absurdo, o que pisa de botas imundas no tapete das etiquetas. Sempre de forma grotesca, mesquinha, submissa e por vezes arrogante. Até o meu silêncio me expõe em carne viva. Sim, eu me exponho, me jogo ao mundo. Meu Deus, eu erro tanto e nunca soube conviver com meus erros. Por esta razão, tenho sofrido os piores enxovalhos, sempre calado, em meio aos falantes honestos, que nunca erram, que são sempre íntegros.
Se resolvo falar, o que penso me torna mais ridículo ainda. Eu sou cômico ao assumir que envelheço sepultando certezas. Quanto mais anos acumulo, menos sei. Diferente dos meus amigos, sempre espertos e lúcidos em suas verdades inventadas, sob aos quais constroem seus prédios de poucos andares, mas com ânsias de serem, ou até mesmo alcançarem o sol.
Eu que sou vergonhosamente um fracasso financeiro, pago a conta dos que levantam reclamando da comida que ofereço. Sofro da angústia das pequenas coisas ridículas. Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Meus amigos sim, estes nunca tiveram um ato ridículo. Sempre tiveram a grama mais verde. Sempre foram príncipes em todo uma vida. Dignos de honras e aplausos.
Nunca conheci um deles que tivesse uma infâmia em suas confissões. Diante das violências, nunca conheci um que confessasse sua própria covardia. São todos o ideal de si mesmos em suas palavras. Eles falam para quem os ouvem. Os que os ouvem falam a mesma linguagem e por isso os ouvem, só para poderem falar. É a lógica dos perfeitos. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos...
O mundo lá fora é feito de semideuses e suas moscas azuis e seus puxa-sacos. Aqui no esgoto, o mundo é cinza e ecoa pelos canos podres uma só pergunta: “Onde é que há gente de verdade no mundo?”. Longe das plásticas, das maquiagens, da superfície, dos sorrisos, da bebida, dos vinhos, da educação...Não há gente de verdade no mundo.
Há como amar sem ser ridículo? Então não há amor? Sempre há traição na esquina...meus príncipes nunca foram traídos. Sempre a Dinamarca apodrece. Meus príncipes amigos não são dinamarqueses. Eles não são nada e por isso são aclamados como tudo. Queira Deus que em seus silêncios, sejam tão príncipes quanto em seus holofotes. E assim, diferente de mim, não sejam sapos, quer seja dentro ou fora da lagoa...quer sejam beijado ou não por princesas...
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Num bater de páginas eu chego aí
Se for para trazer a cura
Para a doença que você vê em mim
É só loucura
Não me acusa
Se minha alma recusa
A vê como crime
Há só o castigo por ter optado ser assim
Feito um livro livre
Que bate páginas por aí
E nunca pousa em bibliotecas empoeiradas
Prefere estradas nunca visitadas
Não me procura
Se for com a cura
No mais, se quiser vir
Estarei sempre aqui
Acumulo (Luis Vilar/ Maíra Viana)
...das coisas comuns...
...da vida simples...
De tudo que acontece todo dia
Minha poesia é uma flor que fede
Em uma redoma a paquerar narizes passantes
Escrever é quase vomitar
A gente sempre acaba voltando
Eu tinha me deixado para trás
E hoje, eu me flagro andando para algum canto
É...eu ainda canto
Estou ficando velho
Envelhecer sepulta certezas
Tudo cada vez faz menos sentido
Tudo cada vez tem menos respostas
Mas há jardins escondidos nas entrelinhas
Flores que nos sugam e nos acrescentam
às vezes não enxergo bem quem entra
E só quando sai, vejo o que perdi
Esqueço do que ganhei enquanto estivestes aqui
Eu também nem sei se fico procurando
motivos que não existem para morrer feliz
Ou se há Deus realmente aqui
sábado, fevereiro 10, 2007
Desde o muro
Perdemos o sentido
Desde a queda do muro
Desde a construção de tantos abrigos
Desde o silêncio cheio de entulhos
Desde o vazio dos nossos gritos
As luzes entram por um furo
Até quando viver de artifícios
Quanto mais proteção, mais inseguros
É difícil separar virtudes e vícios
Desde o tempo em que erguíamos o muro
Desde o tempo em que fazia sentido
E a gente tenta permanecer vivo com estratégias suicidas
Do que são feitas as águas que cercam as nossas ilhas?
Quanto vale mesmo as nossas vidas?
Qual a próxima estratégia suicida?
Não sei o que fazer dentro do escuro
Que ilumina os meus medos mais vivos
O cotidiano é tão absurdo
Ficou tão natural não fazer sentido
Q.A.P
No nosso quintal, uma inesperada visita
As mesmas armas no varal...
...diferentes pontos de vista...
Quem ainda agüenta viver se antecipando ao imprevisível
Um tiro sem destino quebra as janelas: nosso futuro de vidro
Quem ainda agüenta lembrar que o futuro seria esperança
Com carros que voariam...
...ao invés de condomínios com síndromes de insegurança...
Estamos presos, por entre as grades que construímos
Não há rota de fuga e o caminho muda a cada passo
Estamos presos a tudo o que ainda não possuímos
Não há canto seguro e o tiro pode vir de qualquer lado
De onde virá o próximo avião terrorista
Na torre em nosso quintal, uma inesperada visita
As diferentes frases no jornal...
...para sempre o mesmo ponto de vista...
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Ridículo
As voltas que o mundo dá
Às vezes ter tudo e não te ter
É o mesmo que estar em nenhum lugar
Às vezes incontido por não viver, existo sem vê a vida passar
Navegamos sem saber a dimensão do mar
Cada um em seu aquário a querer ser maior que o mar
Eu preciso te dizer
Sei que é lugar comum
Mas não há outro canto onde eu queira chegar
Nem outro lugar que onde eu queira cantar
terça-feira, fevereiro 06, 2007
As pequenas grandes coisas que aprendi com Vanessa Alencar
Sorrisos maiores
Presentes mais simples para se oferecer
Cores nos olhos
Olhos nas flores
Dias mais limpos para se viver
Sentimento que cabe em uma canção
Sem muitas palavras...pouca explicação
Hoje eu trouxe o mundo para você
E ele é tão pequeno que cabe tudo o que a gente quis
E ele é tão espontâneo que nem precisa ensaiar
É deixar o enredo de lado para ser feliz
É deixar a simplicidade nos fazer sonhar
De pés descalsos
Faz tanto tempo que eu não piso no chão
Sempre com sapatos
Acelerando os passos e encurtando o coração
Quero água do pote
Vagalumes acendendo o jardim
Televisão quebrada para consertar o que sobrou de mim
Uma xícara de café
Amor sem muitas metáforas
Um livro para descansar as pálpebras
E um caminho sem destino, só para por os pés
Hoje eu trouxe o mundo para você
Queira receber...queira me receber
Cidades Invisíveis
Formada pelos lugares por onde já andei
Em busca de dias mais felizes
Em busca de acontecimentos cada vez menos críveis
Guardando segredos impossíveis de conter
Em busca do destino que eu sempre mudei
Em minha cabeça há uma cidade
Ocupada pelos fantasmas de quem nunca esquecerei
Casas desocupadas passam feito cenas de filme
Quartos que nem lembro ao certo se neles morei
Passam em preto e branco, momentos alegres que me deixam tristes
Pessoas que morreram, outras que ainda existem
Resquícios de sonhos ingênuos que nunca mais terei
Em minha cabeça há uma cidade
Com pessoas e lugares...um cemitério de bobagens cheio do que nunca vai morrer
Há novelas não filmadas, filmes nunca escritos
Daria até uma boa história o que nunca vou dizer
Em minha cabeça há uma cidade
Uma ilha cerca pelas imagens do que desejo ser
Herói, vilão, tipo comum...tipo ninguém...
Em minha cabeça há fotos que desbotaram
Há flores que nunca desabotoaram
Há pétalas que caem sem ninguém saber
Em minha cabeça há também coroa de espinhos
Há um lar vazio que espera o que receber
Nem sei
Tudo aquilo que jurei nunca ter em mim
Mas o fato é que estou aqui
Escancarado feito encontro as portas de um bar
Quando preciso ter fé, quando preciso rezar
Tolerância no jardim
Eu não posso falhar porque tudo é por você
Eu deixei a inocência cair da bagagem em terrenos da infância
Hoje, tateando nos escuro eu luto para não me perder
Faço dos teus olhos os meus faróis
E nada vai me deter enquanto pensar em nós
Eu ando cultivando a tolerância
Eu ando deixando as dores do outro lado da porta
Para só perder tempo com o que realmente me importa
E assim encontrar um oásis em você...
...nosso jardim, nosso bebê...
Sei que é guerra, mas eu estou calmo por incrível que pareça
Sei que é distante, mas eu estou caminhando sem perder a cabeça
E se me faltar tudo
Hei de lembrar que sempre tenho mais do que o necessário
Ao estar ao teu lado, o meu mundo
O meu mundo é mudo e gesticula o que só você vê
Eu ando cultivando em mim você
Eu ando cultivando por mim e por você
Eu ando cultivando tolerância quando ninguém vê
sábado, fevereiro 03, 2007
Delete
Só nos sobrou sombras e coragem
De um futuro que a gente tentou trazer aqui
Agora seja o que for
A solidão é toda a nossa bagagem
Vou demorar a esquecer o que um dia eu quis de ti
Dentro de mim, não há como impor maquiagens
Sempre vou lembrar que em algum dia fui feliz
Leve o que eu te dou
Deixe-me só e pela metade
Todos os clichês estão em mim
Se for me reencontrar
Em algum dos espaços incomuns da nossa viagem
Limite-se a me cumprimentar e sorrir
Não quero saber
O que você sente ou pensa durante a passagem
Estou apagando as tatuagens que sequer eu fiz
Balé
Luzes se insinuam; há violinos no ar...
Um balé de borboletas
Lençóis fantasiados de altar
Se você quiser me prender, eu não vou querer escapar
Um oásis no meio da solidão deste lugar
É tudo que a gente precisa e não é nada demais
Vem, que a gente precisa de um pouco de paz
Vem, que a febre se manifesta
As manhãs são incertas, as noites hão de nos salvar
Um balé em silêncio
Sem platéia, sem palco certo para amar
Se você quiser me vencer, não sou em quem vai evitar
Um oásis no meio da solidão deste lugar
É tudo o que a gente insiste e não é nada demais
Vem, que a gente precisa de um pouco de paz
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Coração & Mercadoria
Sonhos postos na vitrine...cabeça cansada de negociar
Quem ainda vai saber que temos um coração?
Quem mais vai fingir que as circunstâncias não foram por mal?
Será mesmo a nossa condição? Será mesmo tão natural...
...quem viu a luz no fim do túnel; fogos artificiais...
...não sei se vou conseguir; não sei mentir e dormir em paz...
Quando chega a madrugada e os sonhos cansam de caminhar
Pesados a postos prestes a passear...olhos cansados de vigiar
Por qual motivo vai pulsar nosso coração?
Por qual motivo vão fingir que as circunstâncias não são por mal?
Será mesmo a nossa salvação? Será a selva cartão-postal?
...que viu a luz dentro de ti; realidade surreal...
...quando vou conseguir dormir, sem mentir que durmo em paz...
O preço é alto e às vezes nem sabemos mais no que acreditar
É complicado seguir...é impossível apenas ficar
A ciência acaba de provar o que era óbvio ao teu olhar ateu
Ficaríamos todos presos a espera da bolha estourar
Ninguém vai conseguir sair? Nenhuma ferida vai conseguir sarar?
...eu pensei que era uma luz dentro de mim; era natural...
...eu precisei de remédios para não dormir; rezei para não acordar...
Pecado e castigo vieram hoje te visitar
Alguém te avisou que nesta hora todos iriam te deixar?
“É tarde demais eu preciso ir”
Teus lençóis são tempestades que sopram para nenhum lugar
Agora é preciso ir...impossível parar...
quarta-feira, janeiro 31, 2007
O poeta é o que sobrou de Deus
Uma luz no espelho ainda irradia, o sol que um dia já iluminou tua casa
Houve meses em que a oração foi alívio e poesia
Aos poucos a fé foi cedendo à razão e arrumando as malas
E agora espera a frase certa cair feito chuva em teu quintal
Molhando as sementes escondidas que prometiam curar o mal
Em meio ao teu olhar ateu
Alheio as coisas belas que ainda se movem
O poeta é o que sobrou de Deus
Então, não perca nunca a poesia de vista
Enquanto da favela os tiros são enviados feito cartões postais
De quem não conhece outra linguagem e desafia com novos sinais
É daqui que nascem os novos demônios
Apadrinhados pelos deuses da nossa vã tecnologia
Serão meninos de fuzis os nossos novos anjos
Com áurea de hormônios incentivando a violência dos últimos dias
Na televisão um culto, um pastor da Igreja Universal
Querendo que um copo d’água seja solução para toda e qualquer rotina
Na hora em que só te resta silêncio, o que sobra das tuas falsas alegrias?
E o deus que te vendem na esquina é um mito para tua euforia
Ou se mata ou se morre...ou se salva ou selvageria
Em meio ao teu olhar ateu
Alheio ao amor que ainda nos move
O poeta é que sobrou de Deus
Então, só nos resta não perder as poesias de vista
E quem sabe enxergar e mudar um dia...
Crise de mercado
Entre as mudanças de mercado
Depois do solo da razão
Quem julga o quanto o sapato está apertado?
Até quando agüenta o coração?
Até quando não esquecer a diferença exata
Entre o mundo que a gente esperava
E os dias que vão nos trazendo até aqui
Hoje eu lembrei de quando a gente sonhava
E mal consegui dormir...
Como eles conseguem ser tão frios e exatos
Como eles conseguem descartar e admitir
Que não é possível de outro jeito
Que o foi o mais próximo do perfeito
Que o caminho é por aí...
Aos sonhos que caíram por terra
Aos que desistiram de suas feras
Nenhum conhecimento vai nos salvar
Não será a nova tecnologia
Não serão as velhas utopias
Não adianta colidir prática e teoria
Nenhum conhecimento do mercado vai nos salvar
Sempre vai ter a hora
Em que é preciso cortar gastos
Em que é preciso ir embora
Arrumar a mesa, procurar novo lugar
domingo, janeiro 21, 2007
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Parem as rotativas
| Quem aprendeu a fazer dinheiro? Qual era mesmo a intenção? Quem permaneceu firme e honesto Cara a cara com a ambição? Quem conseguiu ser dono das próprias riquezas Sem se submeter à possessão? Quem conseguiu esconder suas fraquezas Em maquiagem, em quadros da televisão? Quem conseguiu transformar em fortaleza O peso da solidão... É sempre assim A promessa e a ética de não aceitar Os meios de comunicação justificam os fins Que você escolheu para mudar O caminho é fácil demais O difícil é não se ter a si mesmo a toda hora É só isto o que ainda me faz ficar Feito um dinossauro perto da crista da onda Quem sabe a manchete do próximo pesadelo? Quantas páginas impressas valerão tua doce ilusão? Em caixa alta, a verdade sempre ficou para depois É a nossa letal condição Por trás da cortina, sussurros ao telefone É a nossa condicional permissão Para escolher o que é fato ou importa É sempre assim O discurso de quem não está aqui para julgar Mas os meios de produção justificam a velocidade Com que você vai nos aceitar O caminho é fácil de mais O difícil é se manter sóbrio a toda hora É só isto o que ainda me faz pensar Feito um dinossauro perto da crista da onda Quem quiser ler de fato a verdade Que escreva suas próprias impressões Quem quiser falar sobre liberdade Que tente sempre prender alguém às próprias visões No mais, o jogo é de pergunta e respostas Preparadas para um jogo de apostas |
Lado (poema simples e descomplicado)
“Tô” em paz Eu escolhi um lado Meus olhos estão abertos e são passionais Eu estou ao lado Estou buscando motivo para amar demais Ainda acredito na nossa história E mesmo que não haja glórias Eu sei o que me move e o que me faz Não adianta vir com novos prédios Meu coração não quer Eu nunca tive crédito Mas sempre me sobrou fé Na falta de lugar melhor, sempre caminhei Nunca fiquei parado a espera de futuro qualquer Só devo aos meus passos meus erros de lei “Tô” em paz Juro que é do fundo da alma Meus poros estão abertos a erros a mais Nem sempre tive calma Mas estou buscando motivos para ir atrás Não sei bem o que quero Mas sinto o que não cabe em mim Eu nunca tive crédito Mas sempre tive a coragem de seguir |
Na procura dos mortos
Pra onde vão teus olhos À procura de outros mortos Os sorrisos ficaram presos às fotos Nada se renovou Hoje o dia amanheceu triste Perdi o sentido do que em mim existe Não sei se existo, ou estou vivo O silêncio não se rompe com o grito O escuro veio iluminar a dor... Pra onde viraram os teus olhos Quando os teus passos ficaram tortos Por achar que escreveriam em linhas certas E agora a crença já era Ninguém fala mais de amor Os dias estão ficando cada vez mais tristes A solidão e o prazer ofuscaram o nosso limite E tudo segue sem sentido O silêncio não se rende ao grito O escuro veio esconder a dor Ficou indiferente Se é por lucro ou por amor Canções pós-modernas Embalam a moda que já passou Hoje o dia anoitece triste... |
Aos teus olhos
Quem vai ter livre acesso Quem vai estar por perto Quando tudo ficar deserto Quando teus olhos perderem a cor? Às vezes existo, mas não me sinto vivo Escondo-me dentro do silêncio...implosão do grito Não enxergo o que trazem teus olhos Qual a diferença entre ter e haver razão? Qual é indiferença que habita nossa emoção? Quem vai ter livre acesso ao mundo que nos espera? Quem vai estar perto para acalmar a fera? Às vezes sei como acontece, mas não entendo Escondo-me dentro do silêncio...não te compreendo Não leio o que trazem teus olhos Como pode passar por nós tão indiferente Quem disse não haver diferença entre prazer e o amor Ainda existe alguma canção que emocione a gente Que coloque na mesma valsa, a caça e o caçador Ás vezes procuro tanto o que em mim incide Encontro-me dentro do silêncio...só você existe Então sei o que trazem teus olhos Sei o que trazem teus olhos Sei o que movem teus olhos |
domingo, janeiro 14, 2007
Deus quer nascer em mim...
Um breve encosto para qualquer barco
Que quer sair de mim
Uma fé que me fere aos poucos
Por contrariar o que sempre vi
Agora que a ciência decretou o morto
Deus anda querendo nascer em mim
Uma oração no simples ato de sorrir
Que nos faz estar um no outro
Eu digo que Ele chegou;
Ele me diz que sempre esteve aqui
Não sei se acredito Nele
Se Ele existe nunca duvidou de mim
As coincidências em mar revolto
Podem até comprovar o que eu nunca vi
Desde ontem
O quanto amo você
Sei que peco tanto em não dizer
Te sigo sempre com a mente
mesmo quando não te vejo mais
Só há distância e tempo quando não estou com você
No mais só existe paz, no homem que foi você quem fez
Não precisa abrir a boca
Agora é só para que você escute
O quanto eu te amo sem te dizer
Toma conta do meu silêncio e vem em paz
Não há nem definição para saudade
Ou para a liberdade quando estou preso a você
Desde ontem, que hoje eu já te amo muito mais
Será que você sabe que não houve mundo antes de te ter
Como se eu só estivesse vivo para chegar a você
Entre tantos percursos tua alma é meu mar
E nem houve curso certo, como não era certo que eu pudesse amar
Agora, um outro mundo me vem...
Eu queria tanto te dizer
Não dormir pensando em você
Entre outras frases clichês...
Agora, um outro mundo se fez...
Não precisa abrir os olhos
Agora é só para que você possa ver
O quanto minha sorte é você
Toma conta do meu silêncio e vem em paz
Não há definição para essa estrada
Que tomamos sem perceber
Desde ontem, que amanhã te amarei muito mais
Samba sem som, nem piedade
Faz lembranças valsarem sem endereço
No salão deserto do teu olhar
Na parede do quarto, um filme de guerra
Que ao invés de soldados, traz uma batalha a dois
Já que na trincheira da saudade
O beijo que não existe mais é arma sem piedade
Ele vem para te matar, para te matar
Não adianta fechar os olhos, que a cena passa por dentro
Cada um carrega seus mortos, ainda vivos em outros braços
Não adianta abrir o tempo, que a chuva cai é aqui dentro
Cada um carrega suas dores, ainda que em novos abraços
Eu sou o furto do que fui e hoje não me acho
Na volta
Quem ousa desmentir
Não sabe nem de si, nem o que traz
Ela demorou a dormir
Pensou que a noite não teria mais fim
Porém o tempo não pára para que possamos nos conhecer
É preciso romper as fronteiras que o mundo teima em nos dar
E a música há de seguir
A dança também terá que acabar
Restarão calos nos pés sobre o salão
Na cabeça a invenção de uma nova canção
Que nos dirá que amanhã o sol será capaz
De secar o orvalho que eu deixei
De iluminar tudo que sem querer lhe dei
E que você foi sem nem notar, que era o melhor que poderia dar
Porém o tempo não pára para que possamos nos consertar
Você faz parte da enciclopédia que nunca quis escrever
Que outros talvez queiram ler
Mas que nunca vai então me revelar
Eu sou infinito assim, dentro do menor espaço a me sufocar
Se ela quer saber se retornará para mimAinda que volte para aqui, eu não serei mais o mesmo lugar
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Não posso chegar pelas rotas do seu olhar
| Eu sigo em paz sozinho, por entre as nuvens Nunca escolhi bando, nem ninho para morar Sei dos perigos postos por entre as ruas Mas não posso querer chegar pelas rotas do seu olhar Que me proteja o sol quando for dia E que noite traga verdades que só o medo pode revelar Quem disse que é obrigação do sangue correr nas veias? É por estar preso ao corpo...é por não estar solto no ar Sempre fui só compondo a manhã que me clareia Mesmo que sempre estivesse à espera de ver você chegar Não confio em nenhum abrigo Às vezes faço prece até pelos meus inimigos Só para não ter ninguém a me acompanhar Não deixo ensinamento, nem lição de vida Não estou para edificar o tempo Nem para encontrar uma saída... ...a roupa que cabe em mim, só em mim servirá... Que julgue quem vê pelas janelas das casas Estou pela rua a aliviar a minha alma Não preciso de bando para abrir minhas asas Não odeio ninguém e quem eu amo é um pouco meu lar Onde posso estender nos varais meu cansaço Onde posso mostrar que nos sapatos só trago os passos As pegadas ficaram em seu devido lugar... E você é assim como eu Estende os braços quando sorrir com o espírito Mas não deixa de vigiar a inveja dos malditos E o nosso desprezo é o mais certeiro tiro No peito de quem acha que aprendeu a viver E agora teima em querer ensinar... |
Acesso negado
| Não é nada engraçado, achar graça de tudo É tiro ao alvo e nem perguntaram O que está entre eles e o previsível futuro Chegaram todos atrasados e ainda acreditam Que é inédito o museu que ainda está pra nascer Corrida pela senha...o acesso está implícito Mas só não enxergar quem não quer querer poder Corrida pelo espaço...o avesso sequer persiste Ignoram os tristes com auto-ajuda e prazer Sozinhos em meio às caras ao lado Será que de fato crêem que a solidão não existe? Eles trocam de moda, mas continuam o que são Eles trocam de pele, mas o veneno ainda é o mesmo Mudam as novelas, mas é a mesma invenção De tanto apanhar, chega o dia em que não mais se esquece ...ou se muda o caminho, ou se molda à dor... De tanta ilusão, chega o dia em que a realidade perece ...ou se muda o foco, ou o mito molda a visão... |
Quem imaginou que não seria?
| Sempre arriscado...quem imaginou que não seria É assim com quem escolhe um lado Sopra o coração com o que se sonhou um dia Todo dia a gente quebra a cabeça Para juntar as peças de uma poesia Família, filhos, grana em plena auto-estrada Às vezes nada rima com nada Só que o mundo não para e só nos resta ir... Sempre faltam peças depois de parar um tempo Quem é que não precisa de um pouco de silêncio Fantasmas que atacam lá fora ganham sobrevida aqui dentro Mas me refugio no mundo que você me deu E meu coração é todo teu... E olhe que nem sei se um dia ele foi meu Tentam me fazer acreditar que é pouco Julgam-me como se eu já estivesse morto Mas o valor do mundo que nasce dos teus olhos só eu sei O valor do mundo que nasce dos teus olhos só eu sei Eu aprendi a enxergar aonde cheguei... |
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Personagem
| A vida segue sem você Tinha que ser...tenho que me virar Sou do futuro agora e quem vem lá não vai saber Que um dia eu sai colhendo meus pedaços pelo chão Por onde pisamos sem entender que o caminho nos seguirá Do meu vazio cuido eu E ninguém precisa indagar... O que se perdeu, ou que se deixou de ganhar Será um farol condenando o que virá Não haverá como esquecer, Ainda que haja uma forma de deixar de te amar São nossas marcas a partir de agora Armadilhas para quem quiser nos encontrar Ficamos mais profundos sem querer E em qualquer novo corpo que eu possuir Sua alma vai estar para me assombrar Até o dia em que eu deixar de existir Mesmo que algum dia eu ainda deixe de te amar É que a vida segue sem você Mas minha alma não seguirá Ainda buscará teus olhos, a minha nova vida Nem que seja para te mostrar Que foi possível sem você Ou que nunca será... |
Equilíbrio químico
?Quem ainda chora ao sabor de uma canção?
?Quem ainda crer em algum mistério?
?Quem sabe o significado da palavra coração?
Minha cabeça busca equilíbrio químico
Mas para mim é tão físico quanto o amor e a dor
Às vezes creio mais em anjos que em comprimidos
E tuas asas ainda abraçam o que nos restou
Endofina não é felicidade, nem sensação
Quando o escuro não passa, nem acaba
Um sol interno ilumina o poço da solidão...
Não adianta correr
Não há como escapar
A prisão não possui paredes
Mas é impossível se soltar
Não se trata de ter respostas
Mas a pergunta certa para alguém nos escutar...
Só há dúvidas em mim...
....e eu não sei fazer as apostas...
Eu ainda pago por ser sincero
Eu ainda choro ao sabor de uma canção
Não sei se ainda creio em mistérios
Ainda busco o significado de se ter coração
(E quem precisa saber além de nós dois...)
De que me vale saber a causa e o nome?
De que me vale traçar métodos e uma rota?
Às vezes nem sei ao certo do que tenho fome
Quase sempre deixo a jugular a mostra
Me deixa fugir
“Não tem por onde escapar”
Mas não há paredes aqui
“Por isso mesmo não há como se soltar”
Como é que eu faço então?
“Liberdade é escolher a própria prisão”
Não pode ser
“Mas pode crer”
Não pode ser
“Mas pode crer"
Desconfigurado
Corrompido pela lucidez, meu coração é quase um suicida
Precipita-se nas paixões, mesmo prevendo a insegurança
Dependendo o ângulo sob o qual se vê
A primeira a fugir e morrer pode ser a tal da esperança
Mas eu continuo aqui firme e forte feito antes
Não sei bem o que será de mim
Mas sei o valor de tudo que vivi em poucos instantes
Se foi apenas sonho ficará o cheiro pela casa
Da luz que me guiou um dia e traria o futuro para dentro da sala
Desculpe se não consigo crer naquele velho mundo possível
Mas isto não quer dizer que não enxergue um novo início
Estacionei Karl Marx em alguma daquelas calçadas
Onde desenhávamos os dias que nos faltavam
Hoje se estou mais pessimista, talvez até seja por vício
Hoje enxergo em pequenas coisas, os grandes princípios
Talvez seja assim, agir mais por amor do que por teoria
Deixar de escrever tratados para compor poesias...
Não quero estar certo, mas cansei de gritar em meio ao deserto
Enquanto há tanta coisa que ainda pode ser mudada
Pode falar mal de mim nos próximos seminários sobre o povo
Pode dizer que eu nunca luto por ninguém
Entre a cátedra e a catedral de mitos novos
Entre os córregos e os rios onde correm conceitos mortos
Eu continuo por amor e não pelo discurso que convém
A valsa entre hipérboles
Seja num dia, ou durante um ato
Nos bastidores, ou no palco...
Eu não me imagino sem você
Longe de ti tudo é sombra e silêncio
Por mais que a cidade me traga terremotos
Longe de ti sou só um pedaço de passado
Jogado em meio aos mortos
Não me imagino sem você
Seja minha metade, ou meu corpo inteiro
Seja de fato concreto, ou exagero
Eu não me imagino sem você
Longe de ti tudo é escuro e tenso
Por mais que lá fora seja forte a luz
Longe de ti sou só um pedaço de passado
Jogado entre o que não mais seduz
Não me imagino sem você
Não me vejo em outro tempo e espaço
Por mais alternativas que nos dêem os astros
Eu não me imagino sem você
Só sobra você quando sombras incidem
É você quando meu coração desperta do silêncio
Só sobra você quando nenhum lugar me cabe
Quando conviver com a dor é uma arte....só me sobra você...
terça-feira, janeiro 02, 2007
Real motivo
Amanhã estaremos no mesmo lugar
Talvez até com menos sonhos do que agora
É natural para quem enxerga o mundo andar
Mas sempre haverá vida pra depois
Que qualquer dor nos abater
Sempre há de haver força para não se entregar
Em poucos amigos que telefonam quando tudo "tá" perdido
Em poucos segundos em que o mundo parece fazer sentido
Sempre há de haver um motivo para nós
Sempre há de haver motivo...
Não é a toa que nossos corações ecoam
Que batem no compasso de outras freqüências
Não é a toa que as nossas mentes voam
Enquanto outros mentem sobre o que vale a pena
Sinto muito se falta dinheiro, mas é que não nos vendemos tão fácil
Sinto muito se é mais fácil de outro jeito
Mas é que somos feitos de coração e coragem
Não é nem que não sentimos medo
Mas é que descobrimos antes do fim, o final da viagem
E ainda vale a pena crer
Se quando chega em casa de fato tenho você
Diferente das parcerias assinadas em contrato
Não há motivos para estarmos juntos
E este é o motivo de realmente estarmos
Como uma declaração de amor que se renova a cada ano
Como o item que se coloca de última hora no mais perfeito plano
É sempre o mais importante
Pode parecer pouco para que deseja o mundo
Mas para quem já tem o mundo é mais importante...
Optamos pela dor, optamos pelo mais importante
Muito por muito pouco
Ninguém sabe ao certo o que vem
Qual será o tamanho da onda?
Quem ficará fora do trem?
E pra quem pensa por si só
Não haverá espaço
Ou é corda no pescoço
Ou é andar contando os passos
E pra quem pensa por si só
Não haverá poemas
Ou é boné na cabeça
Ou é andar cortando dilemas
E quem pensa por si só?
Deram falsas glórias
Ninguém sabe o que se fez por merecer
Perderam o bonde da história
Encontram a fonte do poder
E pra quem pensa por si só
Não haverá mais tempo
Ou é aceitar o que vier
Ou é ignorar o que anda vendo
E quem pensa por si só?
E pra quem pensa por si só
Será só mais um dia atrás do outro
Com poucas ambições
Sonhando muito por muito pouco
sábado, dezembro 30, 2006
De coração (Ano Novo)
...para mais uma virada de página?
A festa em si não seduz
Mas que tal orvalhar simplicidade sobre a casa?
Sem promessas exageradas
Apenas ser melhor que si mesmo se puder
E que venha em paz tudo o que vier
Longe dos fogos de artifícios
Novos artesanais inícios
Ainda que seja por pura simbologia
Mas precisamos de mais luz e outras poesias
De coração, que o que há de mais simples possa te tocar
De coração, que o valor de cada coisa se revele a teus olhos
Sem que seja preciso colocar preço em tudo que se vê
De coração, que o que te emocione faça você se mover
Que tal luz...
...espalhada na virada pela casa...
Que não haja muro, conceito, ou palavra
Que seja dada a mão, ao que vier de coração
Pode ser pouco
Mas desejo a todos que vierem aqui
Pode parecer tolo
Mas sussurro aos que não quiserem ouvir
Eu vou escrever o livro que ainda não li
São as possibilidades que jorram diante do conflito
É preciso luta, nasce da dor as frases mais bonitas
Por isto, não podemos perder os poetas de vista
Para enxergar tudo aquilo que o jornal não escreveu
Longe da comoção em massa, o que só é teu e meu
Sombras fazem parte do dia-a-dia
Nem por isto vamos estar fora de área de cobertura
Nos poros ainda transpiram poesia
E eu confiei ao meu coração a razão das minhas loucuras
Solto no acaso e sempre em busca
Eu vou escrever a página do livro que ainda não li
Mas que deveria estar na prateleira que eu nunca vi
Para dormir em paz, sem comprimidos...
Para acordar em paz, sem ser reprimido...
E anote bem, nenhuma tradução é tão exata quanto a vida
Todo mundo precisa de uma leitura
Mas no mundo, não há leitura precisa...
E quando quiser aliviar, busca teus pares...paira no ar...
Estamos afastados, mas não somos minorias
Teu mundo pode ser o que você escolhe aceitar
Estamos anestesiados, mas não somos minorias
É preciso estarmos juntos nas manhãs mais aflitas
Se respirar, é flagrante delito
Aqui não há justiça, aqui não há justiça
Quando chega é mão no muro
Que não apalpa o futuro
Malandro tu vai ser revistado
E se eu achar algum trocado é tráfico
E se eu não achar trocado é tráfico
Aqui se nasce derrotado de um jogo que não se quis
Aqui são bem menores as possibilidades de ser feliz
Tem um cara lá dentro que vende mais barato
Tem que pagar rápido se não entra no saco
Cabeça no chão e mãos onde eu possa ver
E se eu achar algum trocado vou matar você
E seu não achar trocado vou matar também
Se respirar, é flagrante delito
Se respirar, é flagrante...eu repito
Mostra o bolso, deus queira que hoje tenha algo
É para sua proteção, você sabe como é o mundo aqui embaixo
E quem disse que o inferno é mundo
Pode não ser mundo, mas parece mudo Seu polícia
Se respirar, é flagrante delito...
Eles parecem ninjas
Todos de preto para bater em pretos calados
Eles parecem ninjas
Todos de preto apadrinhados do Estado
São especialistas em exceção desde que haja extorção
O nome deles é polícia...
Murro, soco, ponta-pé...calar pela barriga
E não adianta nesta hora vir com sangue quente
Não adianta nesta hora dar uma de inocente
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Capitã América
Quem sente sobre pele os satélites que se anunciam
Oficializaram a magia dos teus olhos;
institucionalizaram a rebeldia
Quem carrega nas costas a América
Um continente contido nos planos da CIA
Na rota dos chineses, ondas de pirataria
Perdemos o controle...pairamos sobre a culpa
Nós viemos a reboque...o que nos cai feito luva?
Como se faz para ter sonhos na América?
Esquerdas da esquerda se privatizam e silenciam
Como se faz para ter sonhos na América?
Fidel Castro, Hugo Chaves, Lula, Morales
Quem são os pares?
Quem são os pares da América?
Quem força a porta para entrar em Cuba?
De um lado a cara da luta do outro a hipocrisia
Dossiês de inteligência, chuvas novas em Brasília
Quem são as estrelas na bandeira brasileira?
Quem são os herdeiros das capitanias?
Quem nos capitania?
A quem pertence a América...
Há América? Há América?
Sou louco por ti América, sou louco por teus horrores
Aos Milagres
A fúria destes dias nos deixa longe da nossa melhor parte
Então quem vem nos visitar no auge da dor?
Quem virá nos ver, quer observar ou sugar o resto de som
Nossa fortaleza – nem de nós – nos protege mais
Como guardar o que há de melhor em nós?
Como deixar escapar a nossa voz...
Nossa prece – nem de nós – se lembra mais
Rezar por dinheiro, no fim!
E assim esquecemos dos pequenos milagres...
...que descem para nos proteger...
E quem não precisa de um milagre pra agüentar um dia a mais
Que sejam coincidências...sejam ilhas de paz...
E as pequenas coisas nos protegem por qual razão?
Serão milagres? Serão milagres que fazem serão?
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Orvalho de Otimismo
Que casa corpo com alma
Que me inunda feito luva na mão
Que veste o sorriso de idéia
Que transcende a tensão da estréia
Quando inauguramos o palco da solidão
Chuva que cai agora ao lado da tristeza
Levando embora quem nos agarra pelo coração
Chuva que destrói raiz
Jogando novas sementes nos mais inférteis dos chãos
Chuva que afaga a retina dissipando a dor
Pode chorar...pode chorar
As lágrimas podem ser orvalho de otimismo
Estamos saindo do fundo de nós
A solidão é a pior forma de egoísmo
Deixa o futuro te visitar
Pode chorar...pode chorar
Teleologia
Muito menos ter as respostas já postas
Vivo de sonhos (e há quanto tempo não sonhava?)
Hoje, novos milagres me reabriram as asas...
...pode ser o teu sorriso...
...minha filha caminhando pela casa...
Às vezes quando é insuportável a realidade
Crer no invisível pode ser uma das possibilidades
Você pode até achar que eu não sou ambicioso
Porque não desejo ser melhor do que ninguém
Entre os discursos e as ações vigentes
Entre as miragens e o que de fato é transparente
Eu realmente não preciso ser melhor do que ninguém
Basta chegar em casa e ter vocês
Basta abrir asas e saber que amanhã, você ainda vem
Teleologia contemporânea...ciência das cavernas
Intelectualidade de vitrine...qualquer coisa pós-moderna
Não me importa, nem sei se me abrem portas
Lembra do tempo em que éramos vivos, naquelas fotografias mortas
Aonde chegamos? Para onde iríamos? Aonde deveríamos estar?
Você pode até ter certeza...você pode simplesmente achar
O tempo anda e a gente tanto se prende
Quem quiser saber a cor do mistério que se agüente
Quem quiser pintar novas telas de poesia
É bom saber que as dúvidas também angustiam
E você pode até espalhar que nunca fui ambicioso
Por não desejar ser melhor do que ninguém
E você pode até gritar que eu sempre acabo com pouco
Se o valor do que me resta só eu mesmo sei
E ontem eu voltei a sonhar...pois é, ontem eu sonhei
terça-feira, dezembro 26, 2006
Defeito de fabricação
O que te faça andar
Será que não há um dia diferente
Em meio a tudo onde você está
Andei pensando tanto assim até me questionar
O que me trouxe até aqui...o que ainda me faz ficar
Será o fim de tarde com a sensação de dever cumprido
Será o gol da vitória, no último minuto e quase impedido
Será que é porque foi a ferro e fogo que a gente se fez
Será que é porque por mais que gente ame
Todas às vezes é como se fosse a primeira vez
Será? Será? Será?
Este lado irracional pode até ser defeito de fabricação
Nossas curvas inconseqüentes, perdendo o controle e a razão
No entanto é o que nos mantém de pé depois de tantas explosões
Quando perdemos os sentidos...e deixamos acontecer
Sob as ruínas e os ruídos nós sempre somos aqueles que pagamos para ver
Será que não há mais o que te esquente? Será?
O ponto final que a ciência imprime, para nós é ponto de interrogação
O que para outros é latente, para nós é simplesmente nossa condição
Maior dimensão
Por que perder a paixão?
Por entre as ondas destas quimeras
Quem foi mesmo que jurou ter razão?
Qual passado ficou no meio?
Qual livro contém a melhor tradução?
Quem disse que o futuro não veio?
Quem ficou sozinho com a esperança nas mãos?
Tuas rotas te levaram para onde?
Quais ventos te fizeram mudar de direção?
Quando a gente traça os mapas
Sempre deixa de fora o que é de maior dimensão
Quem quiser respostas
Tem que trazer as perguntas certas
E agüentar a verdade sendo iluminada pela dor
Tem que saber que não dura para sempre...
O tempo e a história destroem tudo o que se encontrou
Tem que saber encontrar, sem se apegar
Tudo que é sólido se dissolve no ar
Quem quiser fazer as apostas
Tem que estar disposto a perder sem esperar
E agüentar a derrota sendo maturada pela dor
Tem que saber que não dura para sempre...
O tempo e a história destroem tudo o que se encontrou
Tem que saber pagar, sem ter preço certo
Em toda multidão há um pouco do nosso deserto
Quem escutou o adeus dos profetas?
Por que a poesia impressa perdeu atenção
Quem debulhou terços e rezas?
Qual crença estava certa afinal?
Qual é diferença entre o remédio e a dose letal?
Será a dose certa que separa o bem do mal?
Tem que saber apagar, ao guardar o que te emocionou
Tudo que é sólido se dissolve sob o sol do amor
Dias assim...
Já não busco mais nenhum plano
Estou aberto ao que tiver por vir
Não leio tábuas de maré para compreender oceanos
Acredito que viver não é assim
Se você quer mesmo me definir
Sou contraditório assim mesmo, nem lembro desde quando
Hoje à noite eu vou sair
Vou me perder, quem sabe ainda me encontro
Em dias assim, não há porque mentir
Mesmo não sabendo ao certo do que estou falando
Acho que eu vou me perder, estou indo ao seu encontro
Sou contraditório assim mesmo, nem lembro desde quando
Em dias assim, não há porque mentir
Há dias em que só nos resta aquilo que realmente somos...
Hoje à noite eu vou sair
Vou descobrir aonde chegar, quando estiver andando
Sou contraditório assim, pena se não é o que estavas esperando
No limite, não há porque fingir
No limite, não há porque fugir
Mesmo não sabendo ao certo o que estamos procurando
sábado, dezembro 23, 2006
Olhar
O que não aconteceu
O seu olhar desdenha
O que era sonho seu
Não sei porque o seu olhar não molha
Não molha quando olha o meu
O grão que cai lá fora
Fez galhos e quis crescer
Mas você abandonou a história
Antes que o amor pudesse te ver
Se você soubesse agora
Que o meu coração é melhor ao lado do seu
Se eu pudesse te dizer agora
Que o teu coração faz bater o meu
Não sei porque o seu olhar não molha
Não molha...não molha...
Poema tolo
Pelos poros, transpiram sonhos, sinto pessoas
Sob a noite, atravesso lento a solidão que ecoa
Eu, minha circunstância e um pouco de poesia
Talvez até volte a te encontrar nesta cama vazia
Quem sabe volte a me encontrar nesta noite vazia
Às vezes basta um olhar para mudar a direção do dia
Às vezes basta você me ligar, tudo então mudaria
...outra cor...outro som...
...outra fúria em forma de melodia...
Pelos dias, transpiram sonhos, o tempo voa
Sob os poros, passeiam lentas verdades que ecoam
Eu, minha circunstância e um pouco de ousadia
Talvez até volte a te encontrar naquela cama vazia
Quem sabe volte a me aceitar na nossa noite vazia
Às vezes basta um olhar para mudar a direção do dia
Às vezes basta você me ligar, tudo então mudaria
...outra cor...outro som...
...outra onda que vem e nos silencia...
Turistas do cotidiano (Luis Vilar/ Manaíra Aires)
Do outro lado de tudo que tá prestes a explodir
E a gente ainda se pergunta onde voarão os escombros...
Na contramão...a gente ainda tenta crer
Que é possível parar o trem na estação, sem estar no comando
Pregações no deserto...encantos de sereias no oceano
Aqui dentro, asfixiados em dias iguais
Estrelas que irradiam brilhos artificiais...
Por dias inteiros
Nós somos os turistas do cotidiano...
parece que sempre estamos em terreno estrangeiro...
Estrangeiros que somos em nós, nossas viagens
Turistas de passagem, forçosamente ou não, sempre de passagem
Às vezes a gente sabe, mas ainda assim não consegue entender
Como a violência nos assusta e ainda assim vende muito mais
E a gente ainda se pergunta quando serão as reprises dos escombros
E na contramão...a gente sabe muito bem
Que é necessário ainda crer, mesmo sem estar no comando
Contrariar sereias compondo novos cantos
terça-feira, dezembro 19, 2006
Razão aparente
Havia outros caminhos, mas não houve outro jeito
Foi ao sabor do acaso, uma história pré-definida...
Colidi em ti, regido pelos meus melhores defeitos
Será que foram calculados todos os erros?
Não havia outra forma de chegar
Não havia melhor forma de encontrar
Se não fossem as incertezas destruindo os medos
Que seja agora, ou que seja então a despedida
Não deixe no meio do caminho a razão das nossas vidas
Quando sou alguém bem melhor a cada instante
Quando já nem lembro mais do que havia antes
Eu e você, foi inevitável acontecer
Alguém tentou nos avisar...demoramos tanto a perceber
Eu e você, era impossível acreditar
Quase ninguém ousou apostar no que não pudemos escolher
Eu e você, agora já não dá para deixar
Quando fomos derrotados, fomos os primeiros a vencer
Eu e você, ao acaso até onde seja possível chegar
A espera do que é impossível prever...
Sob águas turvas
Não serão colisões de aviões...nem noites sem fim
Pequenos gestos: focos de luz na última curva
Vamos ao mar ainda que sob águas turvas
Minha nau sem portos...
...meus caminhos a esmo...
Como podem os sonhos estarem mortos...
...se os medos ainda são os mesmos?
E amanhã se não for solução, também não será a última vez
É preciso acreditar...sem perder a lucidez...
Quem vem? Quem virá? (Quem será?)
Algo que nos fará sonhar...flash back em alto mar
...virá como inédito o que a gente nunca deixou de ver...
Minha nau sem portos...
...meus caminhos a esmo...
Como podem os sonhos estarem mortos...
...se os medos ainda são os mesmos?
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Composição
Da dor ao parto...do parto a luz
Continuar ainda que saia do tom
Do alto da nossa imperfeição
Deixar sentir e compor como se fosse a linha da mão
Deixar correr como um rio sem direção
...no final haverá mar...
...que a gente atravessa sem perceber...
...as correntezas e a embarcação...
Não sei do que fala o último verso que te joguei
...mas saiu do fundo do poço do coração...
...foi sem predileção, sem previsão...
...eu juro...
E há quem diga que é um mistério solto no ar
Não há mistério algum no sobrenatural
...eu juro, é real...
Desenhar a letra sobre a sensação
Da dor ao parto...do parto ao que nos conduz
Continuar ainda que tropece na razão
Do alto da nossa imperfeição
Deixar sentir e compor como se fosse necessário vir aos poucos
É necessário...é preciso para que eu não termine louco
...no final, vou me exorcizar...
...e você às vezes me vê sem perceber...
...minhas nuanças, meu sufoco...
Não sei do que fala o último verso que te dei
...mais saiu do fundo do poço do coração...
...foi premonição, ou prescrição....
...eu acho...
E há quem diga que há uma razão no ar
Não precisa motivo, nem razão para o que é real
...eu acho que é sobrenatural...
Quadro geral
Dores que trarão o que de melhor há em você
Difícil avaliar até tudo assentar
Enquanto a tempestade de poeira molda o que não se vê
Não existe tempo em vão
Por maior que seja o vão entre querer e poder
Às vezes a gente chega onde nunca imaginou estar
Às vezes se revela dentro do caos algum novo lugar
Que até então, estavam distantes das previsões
Que não faziam parte dos planos, nem das compilações...
É para deixar o tempo passar
Antes de pintar qualquer quadro geral
Da dimensão da dor ou até mesmo das satisfações
Não dá pra ser feliz, sem antes sujar as mãos
...sem antes derrubar ao chão...
...o que antes sequer pensaríamos em perder...
E quando estiver somente você e seu olhar mais ateu
O melhor pode nascer dos erros que se cometeu
Não há caminho certo para ninguém
Não queira crer que este será o seu
Sob um mapa traçado, não há som, fúria, ou amor
Sob um quadro pintado, as emoções não se traduzem em cor
Poucos os que brindam às uvas, com o vinho que a vida deixou
Poucos voltam para ver o que restou
Sem raízes fixadas, sem endereço, sem altar
De peito aberto em qualquer tempo, por um novo lugar
Não há condições ideais em um jogo de xadrez
Se descuidar, qualquer peão pode acabar com o rei
O tempo virá para nos maturar e não será fácil
O tempo virá para nos acomadar e será fóssil
Faz parte
Decidir antes de conhecer
Comprar sem saber porquê
Querer só porque todos querem
Faz parte
Querer mais antes que o que se tem acabe
Absorver sem muita profundidade
Faz parte achar que qualquer coisa é arte
Faz parte ter certeza
Disfarçar defeitos para vender a máquina
Se isentar de responsabilidades
Quando explodir o caldeirão da fábrica
Faz parte
Um rótulo para resumir
O que a gente não tem tempo para entender
Um resumo para existir
Já que é pouco tempo para se viver
Faz parte
Solos de guitarras sobre noites intermináveis
Discursos longos em defesa de atos questionáveis
Venenos diários em copos descartáveis
Faz parte
Repartir o bolo em diferentes metades
Achar que Justiça tem a ver com ternos, gravatas
E frases memoráveis...
Tudo isso faz parte
Mas não fazemos parte de tudo isso
Qual será a parte que nos cabe...
...desses latifúndios? Dessas virtudes e vícios?
sábado, dezembro 16, 2006
Vestibular
Quem necessita dos ritos de passagem?
Quem precisa de segundas intenções?
Quem necessita das rotas de viagens?
Marcar o X no lugar correto,
é o mesmo que assinalar no espaço onde eles mandam?
Dar a resposta que eles acreditam ser o certo
é o mesmo que está certo a espera da oferta e demanda
Entrar no mercado...
...é dinheiro para se vender ou para comprar?
Ganhar terreno e espaço
...é se reduzir ou viver a se ampliar?
Quem jogou a rede? Quem precisa ser pego por ela?
Quem ainda vê o sol se pôr pela janela?
Quem de fato se opõe, no discurso e na ação...
Quem de fato se dispõe, com calor e coração...
Quem de fato precisa responder as provas?
Quem de fato necessita aposta no cavalo ganhador?
Quem já viu a chance passar selada
E de fato acha que perdeu algo porque não a montou?
Foram meus erros mais perfeitos
Que me fizeram colidir com você
Eu não estaria aqui se minhas solas não derrapassem tanto
Se acertasse sempre de primeira
Se fosse sempre como eu sempre quis
Se eu não tivesse abandonado tantas certezas
Eu não colidiria com teus olhos sobre mim...
Hoje eu louvo os meus erros
Segundas intenções altruístas
Quando chega em casa sem saber onde se acomodar
Teu quarto fica infinito...
...teu olhar não encontra horizonte onde descansar...
Nenhum dos teus deuses foi lícito
Todos ameaçaram te abandonar
Parece estranho, o mundo e suas segundas intenções altruístas
Oferecem serviços de primeira...cobram mais caro dos turistas
E tudo o que a gente oferecer é pouco
Seja sangue, suor, silêncio ou sufoco
Em meio as tuas angústias e dúvidas, o que resta dizer
Só possui certeza de tudo, quem realmente sabe pouco
E não ache que eu estou ficando louco
Resolvi ir pela rota de colisão
Não é opção, muito menos falta de escolha
Quem vai entender que é a minha condição
...condição natural...
...caçar interesses ocultos na coluna social...
?qual a razão de olhares tanto para o silêncio?
Se o que se esconde lá você pode sair gritando
Ainda que ninguém te escute, ou esteja vendo
Não há outra forma...não há outro plano...
E teu olhar não encontra horizonte onde descansar
Nenhum dos teus deuses foi honesto
Todos eles fingiram existir, para você se ocultar
...às vezes isto até deu certo...
...hoje não vai dar...
E não ache que eu estou ficando lúcido
Resolvi ir pela voz da paixão
Não é opção, muito menos falta de escolta
Quem vai entender que é o meu coração
...coração natural...
...sem etiquetas ocultas no encarte do jornal...
(E quando vier a chance que nos concedem
Vamos responder as enquetes?)
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Tempos de tempestade
Seria fácil sair para voar quando a previsão der bom tempo
No entanto, a gente bota a cara na necessidade de seguir em frente
Independente de mar calmo, tempestade e trânsito lento
Não vou mais perder meu tempo te odiando
Só paro para o que for idéia...o que não for, eu sigo andando
Não vou debater pessoas...
Nem me defender de ações más ou boas
Se for pra cair, só eu preciso saber...amanhã levanto
A vida não estaciona para consertos
É na corrida que se faz o reabastecimento
Não vou desperdiçar movimentos
Fazendo de pequenas perdas, grandes danos
O elemento do meu coração é a tempestade
Agora que estou aprendendo a me blindar
Sou assim mesmo, um tanto quanto bipolar
Há explosões que acontecem sem alarde
Estou aprendendo a sair do ar...quando você vem me orbitar
Além do mais prefiro doar sangue a fazer sangrar
Jornalistas
Exército pronto para atacar
Vão invadir...vão estar sempre por perto
Mesmo quando não ameaçam voltar
Eles não nos deixam em paz
São bons demais nas mensagens subliminares
Entram pela televisão, bancam cartaz
Estão perambulando a calçada, estão em nossos lares
Sabe-se lá, quem eles são?
Não possuem rostos, mas gravam em nosso coração
Não há blindagem que detenham
Mesmo os mais sábios não escaparão
Estamos sempre amarrados
No meio termo, a espera do que vai acontecer
Até o senso-crítico se dobra ao falso bom senso
Dos comentaristas de esporte na TV
Todo mundo tem uma paixão bancada em outdoors
Para por no carro da feira, para pintar na bandeira
Mesmo com toda a inteligência e com direito a voz
Eles estão em todo lugar...pegam no ar ou pela etiqueta
São cães ferozes com olhar de quem caiu da mudança
São aliados algozes alimentando nossa falsa esperança
De que vai mudar, de que vai ser melhor...
....com a mais nova invenção...
...um novo programa de computador...
...um novo veneno letal...uma nova injeção...
Ás vezes até bancam ter ideais
Para incentivar o modo de produção
Parecem estar do lado contrário
Enquanto marcham com a automação
Não deixam digitais, não passam recibo
Só recebem da contravenção
terça-feira, dezembro 12, 2006
Faltas
Passou batido enquanto a gente só conversava
Tá faltando aquele verso da poesia
Que a gente esqueceu de colocar em cartazes, na praça
Foi esquecimento ou falta de coragem
A gente andou confundido tantas mentiras com miragens
Que hoje não dá mais para acreditar na igenuidade de ninguém...
Moça da TV
Que o mundo andou e ficamos do outro lado
A espera de acontecer
O capital não captou nosso corpo ali parado
Quem diria que o futuro não viria
Nossa guerra fria só queimou soldados
Quem diria que a luz se apagaria
E o escuro deixaria visível
Tudo o que enxergamos calados
Enquanto a moça da TV me paquera
Mostrando a cerveja
Nunca existiram “as fichas sobre a mesa”
Enquanto consumíamos uísque para ideais nunca consumados
Pode até ser que eu seja mesmo louco
Por acreditar que pequenos gestos podem ser inflamáveis
Eu continuo a viver ainda por muito pouco
Chegar em casa e aproveitar o resto do dia ao teu lado
Não vejo lucro em tanto correr
Quanto vale mesmo a sola dos nossos sapatos?
Quando vejo a moça na TV
O que será dela quando voltarem às tendências do ano passado?
Pode até ser que eu esteja mesmo louco
Ao querer que o amor seja mais forte que o Estado
Eu continuo aqui vivendo por muito pouco
Mas é tudo o que preciso para acordar esperançado
Dia de citações...
domingo, dezembro 10, 2006
Especialmente para você e em larga escala
A esquecer o valor e só pensar no preço
De tudo o que nos ensinam a querermos
Clique aqui para calcular o frete e saber o endereço
Para onde estamos indo sem querer
E assim, a gente anda meio que quase morto
Atrás de alguma nova moda que pareça porto
Até que chegue a hora de nos mandarem a outro lugar
Entre, compre e se sinta feliz
Caso não possa, roube, mas não deixe de ter
É pré-condição de tudo o que um dia já quis
Para que possa ser visto, para que se possa perceber
É assim mesmo...é tão estranhamente normal
Que a força bruta esteja oculta nos sorrisos de uma modelo
Que lhe confronta com os piores pesadelos
Ao te colocar em frente ao espelho...tão patético e natural
(Este é cara é mesmo você? O que você enxerga?)
Estão nos acostumando a querer cem por cento
Nos oferecendo sempre menos, no discurso do melhor estar por vir
...câmbio automático ou câmera integrada...
...no pátio da indústria ou do lado da calçada...
(Foi só pensando em você, que fizemos a novidade em larga escala)
Causa
Agora que acabou a festa
Em instantes a madrugada ficou deserta
Voltar para casa te causa tanta dor?
Em teu quarto o escuro deixa tão visível
O prazer foi tão previsível
A noite foi longa para abrigar o que não durou
Teus fantasmas ainda arrastam correntes
E teus amigos só estiveram contentes
Enquanto tivestes algo de valor
Hoje em dia, eles batem em outras portas
Não constroem estradas, aceitam rotas
Por isto que voltar para casa te causa dor
A dor da tarefa de ouvir o silêncio
Como se mais nada existisse ao redor
Onde você se encontra?
sábado, dezembro 09, 2006
A casa sem você
Ela partiu, deixando aceso um último cigarro
A fumaça na sala, espalha um mundo que nunca vem
Ela enlouqueceu...
....me deixou num mundo que eu pensei que fosse sonho
E logo eu, que sempre achei que ela me quisesse o bem
Eu acordei, sem saber o que dizer
Quanto mais sinais segurança, mais frágil fica o nosso ser
Quando se armam as armadilhas
Que sempre estiveram ali e nunca ousamos ver
Há um tempo atrás eu tinha tanto o que lhe falar
Talvez sobre coisas que nunca mais vou poder revelar
Talvez quando você voltar nem faça mais tanto sentido
Porque já começo arrumar a casa sem você
Malas Prontas
?Será que você me entende? Será que é preciso entender?
Bate a necessidade de ir embora
No tempo certo, que só o tempo sabe explicar e colher
Não há nada que resuma, nem há remédio
Cedo ou tarde vai dar a hora, estamos sempre de partida
Viver é eterna despedida
Apesar das memórias, passagens só de ida
Se eu sair sem falar nada, o que meu silêncio dirá para você?
Será que você saberá que é por não ter mais nada a dizer?
Quase nunca o adeus é a última palavra
Na maioria das vezes enterra na alma o que sobrou
Mas não vivo de sobras, nem sombras...não é este quem sou
O fato é que eu estou sempre na estrada
Meu lar está em cada curva errada, que o tempo trata de acertar
Foram meus erros mais perfeitos que me trouxeram aqui
E apesar de amanhã estar em outro lugar...
...você sempre esteve, está e estará em mim...
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Blindagem
Quando furam todos os alarmes
Mãos ao alto, passe os ideias, esperanças e fé
É a gente que comunga com a camuflagem
Quando aceita sem fazer alarde
Por um corpo mais magro, um seio mais farto e quem sabe amor
Quem está dentro? Quem ficou de fora?
O que é fato? O que de fato é história?
Então me digam qual é a senha
Não quero por displicência digitar
Qualquer mundo que por acaso nos venha
Sem plano B
Silêncio dos Inocentes
Como se tivessem assinado um trato
Como se aparecessem por trás dos mortos, no retrato
Ainda que não façam parte dos que estão no palco
Nem é preciso decorar o texto...basta ter um pretexto
Pra permanecer calado, mesmo sem acreditar em nada ao lado
Inocentes ou culpados...objetivos e objetos rastreados
Alguém que vai dizer que é o meio
Alguém vai culpar a chance que não veio
O fato é que estamos amarrados e queremos tudo sem receio
A fome na calçada dos escritórios de escravos
Nos acostumamos aos fatos; recolhemos pedaços...perdemos espaços
Não enxergamos quase nada que existe
Entre me agradar e te agredir, derrubamos o limite
E toda felicidade é vendável; chegamos ao futuro ao lado
Alguém que vai dizer que é o meio
Alguém vai culpar a chance que não veio
O fato é que estamos armados e matamos sem receio
Do lado de fora da janela do teu carro
Descarrila-se o trem do progresso
Entre marabalistas no sinal fechado
Entre as coisas todas que fogem a tua vista
Alguém vai dizer que a tua chance não veio
Alguém vai te ensinar a culpar o meio
Este será teu cartão de visitas
...quando entrares calado na dança que ganha a pista
sábado, dezembro 02, 2006
Corp’alma (Luis Vilar/ Manaíra Aires)
Meu corpo muda de endereço, minha alma não
Parece uma história de amor e desencontros
Minha alma para um canto...meu corpo para um pranto
Ele perdeu o endereço de si mesmo
Ela encontrou na carta sem endereço
O remetente que havia se perdido a esmo
Numa rota épica aberta a imaginação
Num deserto sem rota certa, cheio de insinuação
Ele havia se perdido em sua memória
E já não podia mais reconhecer na fusão de sentimentos.
Ele se perdeu nas noites de insônia, atrás de histórias
No abismo profundo do sono forçado
Ele, nos cafés que o acordavam no frenesi de uma redação de jornal
Pensado nas letras a próprio punho que ela conhece tão bem
Ela se perdeu nas lembranças com o mesmo formato das letras...o original
Ora alongadas como os sonhos de outrora,
Ora ligeiramente afastadas como a proximidade que os distanciou.
Ora corpo, na hora da alma
Ora alma, na hora em que é preciso ser duro como pedra
Ora pressa, na hora da calma
Ora calma, em que tudo o que se poderia perder já era...
Ele, no formal jeito de lidar com os outros
Sem querer saber da sua própria lida.
Ela, sem querer saber da ignorância dos outros.
Eram uma troca, uma mutação
Em que ela passou a se reconhecer nos distúrbios de cansaço dele
Evidenciados pelas letras trêmulas.
Ele é quem havia se perdido, mas foi ela quem se reencontrou nestas perdas.
Do exagero
Nunca deixei a calçada deste lugar
Desde que você resolveu partir para conquistar o universo
Eu nunca soube ao certo se você voltaria
Não existem coisas mais exageradas que promessas e poesias
Em um poema o amor ganha lente de aumento
Qualquer segundo ganha a eternidade de um momento
Por isso quando digo que rabisquei mil folhas ou mais
Talvez sejam duas frases ou três há tanto tempo atrás
Mas a verdade não fará você se sensibilizar
Ao ponto de resolver voltar; ao saber que sempre estive aqui
...neste lugar...
Ela deu singeleza ao mundo

Dona Marinita se encontrava doente há mais ou menos uma semana. Ela havia contraído tétano, depois que levou um corte na cabeça. Chegou a ser internada no Hospital de Doenças Tropicais, mas na manhã de hoje não resistiu. Dona Marinita – conforme a arquiteta e amiga Adriana Guimarães – não havia tomado as vacinas antitetânicas.
A arquiteta comentou a perda para a História da cultura alagoana e ressaltou a importância de Dona Marinita para o artesanato do Estado. Falou ainda que o tétano venceu Dona Marinita, por conta dela ser uma pessoa muito frágil e magra. “Pelo menos ela foi reconhecida nacionalmente e recentemente ganhou o maior prêmio do artesanato brasileiro”, destacou.
Por conta do tétano ser altamente contagioso a equipe médica que acompanhou a artesã explicou que é recomendável o enterro o mais rápido possível, por esta razão Dona Marinita deve ser sepultada ainda na tarde de hoje, em Marechal Deodoro, onde já se encontram familiares e amigos.
Marinita era filha única e aprendeu o bico Singela com a mãe, dona Filó, e após a morte desta, a artesã praticamente se enclausurou em casa e aperfeiçoou o bico. Tornou-se conhecida e entrou para o IPHAN por meio da arquiteta Adriana Guimarães, que sendo muito amiga de Dona Marinita, a ajudou na divulgação de seu artesanato.
A alagoana foi a primeira mulher inscrita no Programa de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Brasil, e figurava ao lado do samba de roda do Recôncavo Baiano e da Festa de Ciro de Narazaré. Neste momento, nossa equipe de reportagem tenta contato dom a arquiteta Adriana Guimarães, para saber maiores detalhes sobre o velório de Dona Marinita.
A renda singeleza é apenas uma das várias tradições culturais brasileiras em fase de catalogação e, em alguns casos, tombamento. Há algum tempo se fala de proteger bens culturais como conjuntos arquitetônicos, monumentos e obras de arte dos efeitos do tempo e da modernidade, para que as gerações futuras possam ter acesso a eles - e por conseguinte à história.
Porém, a partir dos anos 90, intensificou-se a idéia de conservação de um outro tipo de ativo cultural, composto pelas tradições e conhecimentos populares, denominado patrimônio imaterial. São manifestações que passam de geração para geração de forma oral, ou pela experiência, como o artesanato, a culinária, as músicas, as festas, as crenças, entre outros itens folclóricos.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Outro lugar (se deixar levar)
Perder os sentidos...me reencontrar em algum lugar
Sem me pregar para Cristo...sem cruz e sem altar
Apenas por estar vivo; apenas respirar
Ás vezes eu preciso de um esconderijo
Um abrigo para que todos possam me visitar
Longe de tudo...perto de qualquer lugar
Eu tenho poucos amigos...tenho o que preciso
Nunca soube ser preciso ao revelar o que sinto...
....mas nunca soube esconder....
Ainda que sem palavras; ainda que sem querer
Entre o peso na consciência e a necessidade de voar
Entre e feche a porta...precisamos de um novo ar
Quanto mais envelheço, menos possuo certezas
Já mudei tanto de endereços e estive sempre no mesmo lugar
Ás vezes eu preciso me deixar levar
Como quem anda sempre em busca, do que o faz ficar
Não fico só no escuro...não deixo nenhuma luz me cegar
Não fico só no futuro, também vago por outro lugar
A esfinge

Adormeço em noites que não encontram fim
Corre cego pelas minhas veias
Uma espécie de vírus que é tudo o que há em mim
Minhas armas líricas disparam em ti para me ferir
Já sinto frio, sinto medo...
Sinto que há muito tempo a ingenuidade se perdeu
Vejo um vampiro em frente ao espelho
E o que rega esta dor é sangue meu
Te mando beijos e gestos de despedidas
Tendências suicidas
Que me mantém suspenso neste lugar
Apesar do calibre na cabeça, amanhã vou voltar
....eu sei que vou voltar...
Já não consigo me deixar solto no ar
Nas noites de insônia, os pesadelos não me deixam dormir
E a gente finge que a esfinge se revelou por si
Mas são tantos planos...tantos segredos
Há tanto tempo ao teu lado, mas de fato nunca mais lhe vi
O que anda acontecendo
Se antigamente a gente acontecia andando
E hoje tem tanto medo de sair?
Joelhos

As ciências que vasculham o coração
O sentido imposto pelo concreto
Nas cidades, nas infelicidades, na televisão
As sombras, as sobras, o silêncio
Os incêndios, os incidentes, os indigentes
Os que sobraram, ficaram de fora...não voltam mais
A dor dos joelhos dobrados ao sem nexo
A fé manipulada por explícitas e subliminares intenções
O direito ao contraditório, o dever de estar certo
O prazer na carne...a carnificina das paixões
Do que é feito a nossa história?
Além da vaidade, da sobrevivência e do sexo...
Além da contradição
Do que é feito a nossa história
Além do que acaba, recomeça e nos renova


